sábado, 28 de fevereiro de 2009

O "Conta Própria"

Com todo o respeito, mas quero usar este exemplo em um assunto de suma importância para comentar sobre a cronicamente aflitiva situação da região e pretensas soluções. Há muitos anos, eu era ainda gurizote, fiquei sabendo que um filho da cidade, desgostoso com a incômoda dependência paterna e talvez da orientação recebida do pai, coisas de adolescente rebelde, pegou sua mochila, pendurou-a na ponta de uma vara e saiu de casa dizendo que ia viver por conta própria. Atitude na qual não foi impedido por ninguém e muito menos pelo pai - que conhecia suas limitações - e também pelo respeito à vontade do filho, talvez. Três dias depois: uma batida na porta. Era o filho pródigo, disposto a rever sua decisão. Não podendo, no entanto, nunca mais escapar do apelido que ganhou naquela feita, O Conta Própria.
Pois este movimento de emancipação da metade sul do estado, polêmico e carente de profundo estudo, a grosso modo, parece-me assim. Senão vejamos: um estado neo-formado precisa criar, de imediato, todas as instituições necessárias ao seu funcionamento, muito caras por sinal. Obrigatoriamente, de cima para baixo e pelos mais dispendiosos, precisa criar um governo e seu gabinete de secretários, um tribunal de justiça com todas as instâncias, um tribunal de contas, uma assembléia, uma brigada militar, um sistema único de saúde com hospitais razoavelmente aparelhados, rodovias, ferrovias, hidrovias (que não possuímos), polícia civil e sistema penitenciário. Tudo isso, mas muito mais e, principalmente, é preciso criar fontes de renda, as quais vêm da produção( no que somos primários e zonalmente precários). E isso, já antes de completarmos o primeiro ano de vida como um novo estado; na instalação estas necessidades tem que estar todas previstas e logo resolvidas. Mas como? Respondo: Será que o exemplo das emancipações de municípios que são verdadeiros arremedos, sem hospitais, sem presídios, sem escolas técnicas e sem comércio, sem ruas e sem esgotos, que vemos há anos emanciparem-se, não serve de suficiente lição. Se somos uma metade pobre, parte de um organismo rico, como cortar o cordão umbilical que nos nutre e serve de garantias? Para vivermos como o Conta Própria? Mas como?
Se temos uma economia estagnada, não é por culpa só do estado de hoje, mas por culpa do modelo que rege esta economia - muito bom no passado, mas ultrapassado e antieconômico para os dias atuais. E até quando essa cegueira?! Uma cidade como a nossa Bagé, cujo maior empregador é a prefeitura, lamentavelmente falida, como pode ir para a frente? Onde a massa que tem algum dinheiro, e que por conseqüência a que consome, são os funcionários públicos; da cidade, do estado e da nação! Decididamente, está na hora da humildade entrar em campo, de, embora com razão, colocar-se um basta nas culpas impingidas aos bancos e aos planos econômicos e de esperar-se uma solução paternalista vinda de cima. "Aquele que decide a esperar até que as coisas melhorem, verificará um dia que aquele que não esperou, estará tão longe que jamais poderá ser alcançado!" Dizem os sábios.
Assim, como em time grande que está em fase arrazadora e que não dá bola para juiz desonesto e sempre vence, nós não deveríamos ter medo de fantasmas armados de foice ou facão. Isso, se a região fosse pujante, produtiva e sem “arrôto de perú”. E mais, acreditem, a discutível questão dos índices postulados para a pecuária, tecnicamente corretos, se aprovados, só vão aumentar o olho grande em direção a estas terras, pois um camarada que quer um pedaço de terra para trabalhar e sustentar a família, certo ou errado, sem saber e até sem querer saber nem menos o que é índice de lotação, não concebe ver um animal adulto pastando em 2.5 hectares de terra. Pois na cabeça dele existe um destino mais abundante para ela. E, mesmo proprietários, assim não nos será possível agüentar a pressão.
Por isso, ainda que, por agora, como comentei em crônica anterior, seja feita reforma agrária e assentamentos em terras do governo, como parece e com momentâneo alívio, salvo reviravolta muito grande na nossa cultura produtiva com mudança de perfil, salvo um povoamento da região e de outras mentes a acrescentarem-se às nossas (Vide Colônia Nova que nasceu de uma reforma agrária bem conduzida), continuaremos pobres. E para tanto, repito, com humildade, é preciso convencermo-nos que estamos, realmente, pequenos; é a précondição para podermos novamente crescer. Só assim evitaremos que, na próxima década, os filhos dos atuais sem terra, ora por serem assentados por aí e aqueles que se tornarem seus iguais por pressão social, estejam batendo(?) nas portas da estância e até na casa da cidade. Só a pujança nos salva e esta deverá ser carregada com simplicidade, sem ostentação ou emocionalidade.