O caminhar por entre aquela costumeira, mas para ele, inusitada multidão de homens e mulheres agitados, passantes que se tocavam e se chocavam sem se perceberem, cruzando pelas ruas centrais de uma cidade que, mal acabada de acordar, já se mostrava viva e aflita, tudo aquilo despertava-lhe uma curiosidade enorme sobre o que eram e o que tinham aquelas pessoas dentro si e que ignorava, quais os seus segredos, alegrias, sofrimentos, expectativas....?
O dia anterior havia sido um domingo e aquelas mesmas ruas, largos e praças centrais haviam estado vazias do costumeiro borburinho, dando lugar a que se pudesse notar bandos de pombos e outros pássaros a dançar pelos espaços desimpedidos, aproveitando um certo tipo de descanço, emitindo seus cânticos sempre bem-vindos e alegrando os sentidos, embora o inverno. No amanhecer daquele dia seguinte ao descanso semanal, mesmo bem antes das oito horas, como que atendendo a uma solicitação imperiosa de apresentar-se à vida cotidiana, saindo das entranhas dos bairros, espirrando dos ônibus, das garagens, dos edifícios e subindo pelas ruas convergentes, eis que vem chegando a massa em movimento, uma lava esperançosa a escorrer pelas ruas trazendo a pulsação da vida, em meio aos múltiplos sons que acordam a noite.É tanta gente desconhecida, que o seu desconhecimento de repente lhe motiva uma vontade de interpretar uma a uma delas para melhor saber de seus interiores, provavelmente quase todos normais, mas com suas normais exceções, mesmo assim experimenta um ímpeto de interpelá-las para saber de tudo que lhes vai na alma e suas circunstâncias. Para ele, saber o dia a dia dos semelhantes era a melhor maneira de conhecer a vida e seus entornos, pois o ser humano é um universo muito vasto e sobretudo muito rico para passar desapercebido. Mas como conseguir uma aproximação proveitosa sem parecer excêntrico, inconveniente..... e quem daria ouvidos a um desconhecido de perguntas inoportunas?
Os primeiros a se estabelecerem e que lhe chamaram mais a atenção naquele início de manhã, e que, com evidente desconforto, mas que ao menos mostravam de si alguns aspectos, os mórbidos sociais, eram os que sobrevivem ao desemprego e que mostram criatividade na arte de lutar pela vida e de permanecer buscando. Mesmo assim, como seria aquele desconhecido ali, de rosto edemaciado, o primeiro da esquina, um pai de família, um sofredor, um feliz com sua precária condição ou um otimista? Um lutador sabia que era, mas e o resto dentro de sua vida, como seria?
Uma muito bela moça de roupas apertadas em tons escuros, com ares de mal dormida e sua bolsa de utilidades, era por certo uma simplesmente bela moça da noite, pensou ele, fácil de adivinhar(igual a todas)em suas venturas e mais ainda em suas desgraças naquela sina, que por mal entendida em casa, onde um pai mandão lhe pressionou ao exigir rígida conduta e por isso se havia liberado de forma total, indo então visitar ninhos não mais que mornos e maldosamente fugazes, numa vibração de amores vendidos, comprados e tresloucados. No fundo de si, guardava permanentes ilusões de estabilidade afetiva e desilusões, no amanhecer, dia após dia, anos a fio. Era nítido no seu semblante de olhar vago, a aflição que por um tempo que passava com sabor de inútil rapidez, um sabor amargo ao indicar que aquela vida, que no início era para ter sido transitória, estava ficando encruada com suas experiências agridoces, mas muito mais agris do que doces. E não lhe aparecia um braço amigo, o desde sempre idealizado, que a resgatasse para longe daqueles olhos e mãos que apenas lhe tangiam de forma passageira.
Num outro ponto do entrevero, um ceguinho, aproveitando o calor do sol que nunca via, de olhos fundos e opacos, virados para o chão que simulava ver, emitindo uma voz de lata, penetrante, a vender frases e pedaços de amor, e de sorte, a preço de esmolas. Onde será que morava aquele cego, como será que pegava o ônibus, quantas vezes por dia alguém o auxiliava em alguma coisa ou lhe dispensava desprezo, como se orientava no meio da multidão? Enfim, melhor para ele que, por cego, não via tanta distancia entre as pessoas tão perto. Ao seu lado e um pouco adiante, uma mulata gorda de ancas grandes e fartas, de cuja mão pendem bilhetes das tentativas oficiais, calada, observando quem passa, com um olhar de espreita ofídica, pronta para o bote com argumentos de sorte, que às vezes era certeiro, mas que em outras vezes e frente a recusa explícita, um freguês ainda tem a alternativa de buscar a sorte na contravenção, que ela também agencia, o que evidencia acenando um bloco branco que retira da bolsa de curvin, mais gorda ainda do que a dona, de anotações, badulaques, pequenas compras e pertences úteis para alguém que saia de madrugada a buscar sustento para seus três filhos(dos pequenos) e dois netos, filhos da mais velha.Uma heroína do cotidiano, ao menos para os seus de casa, sem dúvida.
Nosso transeunte e observador, em sua análise do dia a dia, buscava um livro raro de que tivera notícia, uma obra através da qual, diziam, poderia entender melhor a figura de Deus, não o das escrituras mas o das criaturas, algo para ele ainda indefinido apesar da crença e mesmo depois de suas conjeturas de adolescente, um livro que depois de muitas procuras e negativas, o encontrou, um grosso volume para ser lido por muito tempo. Foi quando lhe veio uma idéia sobre qual seria o caminho mais fácil para entendê-Lo: através da compreensão escrita ou comparando-O com o produto da sua arte de entender tantas daquelas imagens e semelhanças, das quais as ruas se mostravam fartas e pródigas."Melhor buscar através das duas", concluiu.
Buscou então refúgio num banco de praça, para uma folhada inicial de sua preciosidade, quando depois de breve tempo teve a atenção despertada para um fotógrafo, desses chamados de lambe-lambe. Que vocação persistente aquela que sobrevivia à imensa e potente tecnologia do ramo e que fazia com que aquele profissional ainda enxergasse uma nesga de mercado para sua arte, uma legítima arte, porque no outro modo, qualquer um é fotógrafo! Uma boina basca, óculos de aro grosso, capa de gabardine surrada pelo tempo e manchada pelo trabalho, bem como seus dedos tisnados de marrom, qual um pinhão e unhas compridas; instrumentos de grande utilidade na sua lida. Quantos casais, com juras de amor para sempre, já teria fotografado? E quantos ainda se amariam como então? Qual deles teria acabado em crime de paixão?Tudo também irrespondível, mas como das vezes anteriores, tudo imaginável a remexer o observador.
E entregando-se a folhar e pensar, eis que chegou o meio-dia, com a manifestação biológica normal daquela hora. Porque não um velho restaurante do Mercado Público, agora renovado? Sentou-se ao fundo como sempre fazia nesses ambientes, de costas para a parede e de frente para a porta de entrada, donde podia iniciar sua observação e exercitar o pensamento. Lotação moderada, numa mesa ao centro uma pessoa parecia aguardar companhia. Meia idade, rabiscava contas sobre a mesa, as quais pareciam não dar certo, sem se poder afirmar se o eventual erro era entre as quatro operações ou se não davam certo com as suas economias; mas fosse como fosse, sacudia a cabeça em desaprovação. Seria mais uma vítima da escassez de emprego, um mal assalariado, um aposentado ou alguém que havia gasto mais do que podia? Qual dessas hipóteses teria melhor solução se alguma coisa pudesse ser feita?Talvez, imaginava o observador, a que estava mais ao seu alcance fosse a que dependia da mudança dele, o homem, a última hipótese, no caso. Pura conjetura, pensou, mas era um exercício que gostava de fazer. Nisso chega mais um e a seguir mais um outro, que juntou-se ao grupo; este último um homem novo que logo ao sentar deu de mão num telefone celular e pôs-se a buscar alguém. Ao encontrar, logo se quadrou, como que a evitar que os demais participassem do assunto; no entanto, não conseguia dissimular a sua insatisfação pela má ligação que conseguira naquele lugar, às vezes se vendo obrigado a falar mais alto e logo diminuindo a voz, quase num cochicho e a seguir tinha que novamente elevá-la porque era o de lá que não ouvia bem; quando então no ápice da conversa caiu a ligação,"Quê diacho!!". E olhando tudo, o observador pensa: "Que pressão exercem os fatos, mesmo os mais comuns, que não deixam um vivente almoçar em paz!!" Ou então, pode ser ele que não se permite isso, completou. Logo a seguir, chegou uma moça de seus quarenta anos, muito bem cuidada e com gestos calculados. Uma capa comprida de cor preta, botas de verniz até o joelho, cachecol e óculos negros de sombra, os quais cuidadosamente retirou para colocá-los na bolsa de couro, também negro. Não usava aliança, mas seus dedos não tinham muito mais lugar para adereços de tantos anéis que ostentava, os quais combinavam com uma corrente grossa que usava no peito, do qual se via a excelência dos seios através do farto decote, vistos depois que abriu a capa para sentar. Pelas reverencias do resto da roda, era uma pessoa respeitada por todos, ao menos até ali. Muito maquiada, certamente não era uma conduta usual para todas as mulheres numa segunda feira de dia, o andar com toda aquela elegância. Puxou uma inusual piteira, montou-a num cigarro que foi gentilmente acendido pelo colega do lado. Quem eram aqueles, todos estranhos? Colegas de repartição, da Prefeitura não muito longe dali, reunião informal de negócios, talvez? Funcionários de alguma outra repartição estadual ou federal? Aquele era um restaurante de gente comum, quem sabe! Mas aquela mulher, em especial, tinha uma estampa de já ter sido casada, pensa o observador, separada de seu marido por seu forte temperamento independente e opiniático, o qual ele agüentou tão somente por causa dos filhos que, uma vez que estavam casados e independentes e já passados alguns anos, se haviam separado. E ela, embora na repartição vivesse rodeada de homens, alguns até interessantes, gostava mesmo era de ser admirada por eles, ainda que ser amada mesmo, da forma como à vezes seu corpo precisava, gostava então que fosse por estranhos que eventualmente tivessem coragem de abordá-la, o que deveria acontecer não muito raramente, pensou. Quanto mais estranhos, mais asas tinha a fantasia!; deveria pensar ela.
Terminado o almoço, todos se foram e ele ficou a pensar vazio, não havia mais ninguém além dos da casa e uma cadeira chamou-lhe a atenção, pendurada no teto com uma pequena placa explicativa que ele não conseguia ler.Talvez fosse a cadeira do primeiro dono, ou do pai do atual dono, a qual, carinhosamente, era preservada para que ensejasse respeito e indagações. Pediu a conta e na saída perguntou ao moço da caixa, um que lhe parecia mais respeitável e com pinta de ser o dono;---De quem é aquela cadeira,moço?---É do Chico Alves. Há muitos anos...., numa passagem por aqui, cantou, sentado nela!
E o observador saiu, então, pensando se todas as suas imaginações e fantasias daquela manhã a respeito de quem viu e com quem se passou nas ruas, eram singulares como essa última.....Ao mesmo tempo que sabia que, se não eram bem assim, bem que poderiam ter sido.
domingo, 17 de agosto de 2008
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