sábado, 28 de junho de 2008

A duração do tempo

A DURAÇÃO DO TEMPO

Como a maioria das coisas na vida, o tempo era também uma coisa relativa, pensava ele. O tempo da indiferença, por exemplo, tinha uma duração quase nula, imperceptível, era o tempo de uma soneca, não custava, não pesava e nem doía, era um tempo de baixa qualidade que quando se pensava nele, sumia, se assim podia expressar-se. Já o tempo da boa esperança era arrastado; queixava-se ele, esse tempo, que tinha que carregar um fardo muito pesado, numa longa trajetória e por isso era tão demorado; era o peso do tempo relacionado ao tamanho da sua expectativa e à perspectiva dela, que quando era grande ou difícil, levava um tempo mais eternizado para chegar. Quando eram esperanças menores a coisa, então, andava mais rápida, mas também, como os outros, era relativo. Ruim mesmo era o tempo da desesperança, esse sim era um período por demais sofrido, era o tempo das mães de guerra, da mulher do presidiário amado, dá para imaginar, se se pode, que era o tempo do cavalo velho que dorme em pé ou o tempo das vovós que teciam suas recordações com fios sem fim em seus desenhos sem forma, era o tempo em que foi inventada a colcha de retalhos, de infinita paciência e quase inutilidade; vejam só, era o tempo de mulheres silentes de olhares foscos, sentindo a vida escorrer-se-lhes pelas frestas do assoalho, entre embalos e ringidos. Um tempo de depressão, longo e frio, esse era um tempo que não passava.
Mas existia também o tempo das alegrias e da felicidade, de todos o de mais alta qualidade, por motivos óbvios, mas o de menor duração, como se fora pequenos frascos de perfumes fugazes, efêmero, escapista, quase inaprisionável, escorregadio, que quando se queria controlar-lhe a transitoriedade já estava no passado. Mas, sem dúvidas, o mais vibrante e entusiasmado e ainda que inspirador da afirmação de que o que é bom dura pouco(tempo). Ou seja, o tempo bom é aquele que não é durável, tudo por uma questão de relatividade e de percepção.
Pois, foi num tempo desses, não sabia bem dizer quantas medidas em horas, dias ou meses fazia que andava assim, porque ainda não definira que qualidade vinha tendo a sua vivência, mais que emocionante, que aquele coração em especial havia se envolvido, como mais uma de suas costumeiras paixões. Aliás, não gostava muito de chamar de paixão, estava muito maduro para sentir coisas de coração inexperiente, mas duma coisa tinha certeza e sobre o fato aconselhava seus amigos, o coração, por mais desajeitado, encabulado e retraído que seja, deve sempre estar envolvido com um amor novo ou renovado, de preferência complicado ou proibido, que o faça bater desordenadamente e de forma atrapalhada. Pois, dizia com ar professoral adquirido ao longo de muita taquicardia e arritmia, a função do coração é bater nesse compasso, com sofreguidão e expectativa, sempre ocupado com amores desvairados, com ou sem sofrimento, mas de uma forma que ele saiba e valorize o porque veio morar naquele peito.
Mas, como poderia um coração, aparentemente tarimbado, que de muitas armadilhas havia se escapado, e que em outras tantas havia se deixado prender, só pelo prazer da peripécia, daquela vez deixar-se envolver-se com tamanho volume de emoções e tão forte envolvimento? E mais, com um outro estalando de novinho, mas com ares de sofrido e por isso arredio, sestroso, uma dificuldade! Pois aconteceu, tudo a começar quase de um cruzar de olhos despretencioso, uma coisa que deveria ser como um amor de quermesse, sem conseqüência ou continuidade, pois havia se tornado uma avalanche volumosa, um turbilhão que lhe havia lhe arrastado costa a baixo com a razão e a tranqüilidade. Valia a pena? "Sempre vale a pena, quando a alma não é pequena!" Era a grande pergunta que um coração como aquele, segundo seu portador e intérprete, deveria se fazer. Se a situação fosse julgada pela opressora sensação de ocupação e pela rapidez que aquele amor fazia o tempo passar, por certo que sim. E, então, o velho coração madurão andava a "mil pelo Brasil" desde que conhecera aquele similar desconcertante, motivador de todas as atenções do dia e dos sonhos da noite, avassalador era a palavra que mais se aproximava. E o tempo urgia! Pobre dono, desde aquele envolvimento, começado como um nomorico de guri, com aquele outro que também era romântico, que o coração havia perdido a noção do tempo, o tempo era sempre e estava sempre transcorrendo, mas quase não dava para percebê-lo e já era passado. No entanto era sempre presente, pois sempre emitia sinais e freqüência de marreta quebra gelo, extremamente absortas e ocupadas em quebrar a rigidez do outro, um bem mais jovem e quase sem passado, mas mais sofrido em sua inexperiência de dores précordiais desnecessárias que este, deste lado, teimava em dissipar e acalmar com seu entusiasmo de quem sabe que estas dores se curam com os mesmos princípios da homeopatia: simila,similibus curantur. E tudo passa...
Claro, que tudo passa, mas em parceria com o tempo, senhor do universo. Mas, quem garante que esse entendimento é o consenso? Mesmo assim o velho coração veio passando frações e frações de um tempo inadvertido e inebriante, nem saber quantas frações entre uma arritmia e outra, às vezes numa tentativa inútil, mas batera não somente em tom de descompasso - por se animar a se envolver - como reza a sua cartilha e como é a sua função. O velho coração passou outras tantas frações de encantamento e emoção e quando viu, nem sabia o que era tempo. Amar tinha sido um verdadeiro passa-tempo.