quarta-feira, 23 de abril de 2008

Seu Osvaldinho Vieira.

Um dos predicados especiais cultivado pelos filhos e netos do Sr.Otto Carvalho, a quem não conheci, além do total descuido e desinteresse que têm pelos cabelos, a ponto de já tê-los totalmente perdido, consiste na arte de fazer e cuidar de amigos, admiradores ou mesmo servidores. Cuidado que lhes é dedicado no mínimo com um ingrediente chamado simpatia e, quando não, com bondade, amizade e humanidade. De Otto Carvalho Filho, recentemente falecido, já escrevi algumas maltraçadas como meu professor de francês que foi, como também de humanismo e cidadania, que deixou em seus alunos marcas indeléveis de saber e carinho, até hoje um eterno sempre festejado mestre. Um outro é João Bosco Carvalho, meu irrequieto e brilhante colega, que não dispensa uma conversa bem temperada, coroada de peculiar, farta e sonora risada; e outros desta mesma cepa, os quais esbanjam luz e força catalítica.
Mas que nunca se omita a pessoa que reparte o centro da conversa de hoje, Danúbio Carvalho, conhecido de toda a cidade e arredores como um homem que sempre trouxe a clarividência aos milhares de necessitados que até procuram com a finalidade de terem compensados os seus erros de refração ocular, este sim, um verdadeiro homem de visão, reeleito anualmente, quando não continuamente, pelas opiniões gerais. E que tem como um de seus segredos, a justificar ou a acompanhar seu sucesso pessoal, a escolha, o bom trato e a conservação de sua escala de funcionários. Nas suas óticas, mais especificamente na sua principal casa, manteve sempre pessoas em seus balcões, cujos anos de trabalho passam e elas lá estão, algumas com menos, mas outras com vinte, trinta anos ou mais, algumas mais notórias, outras mais incógnitas.
Conheci muito o Sr. Osmar Vieira, que era antes de mais nada um patriarca, um guarani, alvirubro que já deve estar sabendo dos resultados das últimas campanhas e um baluarte da gastronomia e de cordialidade em sua atividade preferencial, a qual desempenhou por toda a vida e magistralmente, no velho Restaurante Tropical.
Pois depois de sua ida para o céu, passou a chamar-me a atenção, pela semelhança, um cidadão franzino como ele, nonagenário e com ele muito parecido, que transitava amiúde pelos espaços da ótica de Danúbio Carvalho. Às vezes, subindo escadas como se um guri fosse, correndo carreira com as gurias da casa depois de baixadas as cortinas, o qual fiquei sabendo ser delas, um bem intencionado abastecedor de balinhas e outras guloseimas. Provavelmente, resquícios de um galã adormecido(ou será que era de um galã apenas cochilando?).De qualquer maneira são gestos que fazem parte dos exercícios para manter bem viva a alma, que Seu Osvaldinho Vieira, irmão do antigo gastrônomo e de quem é quase cópia, e dos quais gestos ele não abria mão no convívio da ótica.
Seu Osvaldinho, pude sentir pelas manifestações das funcionárias e do seu próprio patrão, era pessoa por demais querida e respeitada naquele meio, onde trabalhava como relojoeiro há muitos e muitos anos, artífice em consertos de raridades e antigüidades. Naquela mesma loja, onde há muito tempo tem um relógio desses de pé que, embora sempre estivesse à venda, passou a fazer parte dos móveis e utensílios, sempre aos cuidados dele e cuja corda e pontualidade sempre estiveram sob sua responsabilidade, do qual se afeiçoou. Certa vez um cidadão abastado se agradou daquele belo marcador do tempo, por seu porte e imponência, resolvendo presentear sua esposa com o dito. E, pagando o preço pedido, que não foi pouco, o equivalente, à época, ao preço de um Fuca Zero, daqueles do Itamar. Acertado o negócio e embora com um certo sentimento, Seu Danúbio, o dono, dirigiu-se ao Seu Osvaldinho e pediu que ele desse corda, acertasse as horas e passasse um óleo de peroba no relógio para que se efetuasse a entrega ao comprador, no que foi obedecido.
Nos dias seguintes, o patrão encontrou Seu Osvaldinho muito borocochô, quase chorando em sua sala de trabalho. Quando perguntado, respondeu que sua tristeza se devia à venda do por ele tão estimado relógio, que se fora. Mas a tristeza era tanta, a depressão e o desconsolo eram de tal dimensão e tão notável, que Seu Danúbio, com seu bom coração e que sabe o valor das coisas que realmente têm valor, acabou por chamar de volta o comprador e, argumentando, desfez o negócio em honra aos motivos de Seu Osvaldinho. E ambos ainda ficaram por lá e por muito tempo, funcionando muito bem!
E por muitomais tempo, ainda, depois disso, ele não foi mais visto, o diabete amputara-lhe uma perna e as meninas é que iam em sua casa, buscar balas.