quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Solteirão

Muito diferente das mulheres em seus motivos para permanecer numa vida singular e que nelas foram descritos de forma magistral por Balzac em seu "La Femme de Trinte Ans", os quais, devido às condições de liberdade e de equivalência existente com os homens, hoje em dia, perderam a importância, algumas mulheres racionalizam suas relações e, até mesmo, dispensam a dita solidez do casamento em troca da segurança e o amparo na escala ascendente do mercado de trabalho, que com justiça conquistaram, preferindo viver só.
Mas e os homens, que sentimentos os faziam decidir, no passado e mesmo nos tempos atuais, por uma vida ímpar, típica de tio?
Pois eu conheci um tipo desses e que tipo! Era caixeiro-viajante, morava na casa do irmão e sua família, onde de quando em quando aparecia para alegria dos sobrinhos e parentes. No entanto, era lembrado com respeito e expectativa, principalmente na hora das refeições com a família reunida em torno à longa mesa. Seu quarto, via-se ao fundo, sempre aberto, mostrava seus móveis escuros e sóbrios, um toucador com um retrato de mulher, um lavatório com espelho e uma bacia de louça, herança de família. Envolto em pouca luz, era aventado nos dias que antecediam sua chegada, junto com o colchão que logo recebia mudas limpas de lençóis. Encimando a cabeceira da cama de solteiro, um pequeno quadro, por certo um presente de mulher conformada com sua vocação arraigada e arredia ao casamento, onde se lia: "Aqui mora um solteirão feliz!".
Tio Jaime chega hoje, Tio Jaime chega hoje! Gritava em alvoroço, a gurizada, naquele dia. Sinal inequívoco da sua boa aproximação com os sobrinhos e na antevéspera vivida por eles de ganhar qualquer coisa que servisse de lembrança de suas viagens, nem que fosse uma estória ou até um piada reservada ao irmão e aos sobrinhos mais velhos. E o dia transcorreu em ritmo de espera e ansiedade. À tardinha, uma meia hora depois da hora habitual da chegada do trem, na rua lá longe, tendo o velho mercado como fundo surgiu o carro de praça de Seu Avelino, seu motorista preferido e os pequenos corações dispararam.
Já na frente, uma mala enorme, daquelas de fole, apertada por duas correias, feito cinchas, cheia de tecidos comprados para suas roupas e de amostras de remédios, os quais como trabalhador em laboratório farmacêutico mostrava e vendia mundo afora; uma mala pesada que todos em vão tentaram carregar. Na mão, a valise com os pertences pequenos do tio e, imaginavam as crianças, as esperadas lembranças de viagem. Naquele entardecer, inacreditável, vieram lápis de propaganda(na outra vez, havia sido caixinhas de fósforo!), coisa inédita e nunca vista, lápis de todas as cores e de muitas firmas que eles ganharam em primeira mão e que, depois, muito depois, colecioná-los virou uma moda que já pegou os sobrinhos com suas coleções adiantadas. Tio Jaime, era impecável no vestir, vestia-se no Benevenga, e mesmo depois de uma viagem provavelmente de dia inteiro, seu terno cinza escuro com listras claras e ao comprido, camisa branca e gravata borboleta, com sapatos pretos de bico fino pareciam ter sido vestidos um pouco antes. Como sempre, mostrava-se um homem alto e magro, daí o seu apelido de"Punhal"; cabelo negro bem lambido, longo e rente ao couro da cabeça, bigode fino no rosto miúdo, cigarro na piteira, cachecól de seda branco pendendo do antebraço e no outro lado, o chapéu de feltro e o guarda-chuva. Na calçada, ali mesmo, as crianças queriam aproveitá-lo e o fizeram com seu alegre consentimento. Ali era o momento de festejá-lo, pensavam eles, com as suas ternas e barulhentas maneiras, pois depois da porta o tio pertenceria aos mais velhos, mais tarde às suas atividades na cidade, donde voltava sempre quem sabe a que hora de noite...!
Tio Jaime, dizia-se à boca pequena, era comunista e, seguido, era visto conversando de forma dissimulada e reservada com outras pessoas que tinha o mesmo comportamento reticente que ele, com as quais se entendiam só pelo olhar eloqüente. Pessoas que, quando fora dos momentos reservados às conversas especiais, embora permanecessem reservadas, eram pessoas cuidadosamente comuns, que se cuidavam para não errar com ninguém, coisas que só mais tarde nós, os conviventes observadores, entenderíamos. Além disso, ele era viciado em rapé, que usava no nariz e com freqüência, além do quê, era um ingestor contumaz de bicarbonato de sódio, andando sempre com aqueles pacotinhos no bolso, que ingeria aos poucos e em qualquer hora ou lugar. Aquilo, tinha-se a impressão, parecia ser a tradução de suas angústias existenciais que, manifestadas em setores vulneráveis de seu organismo, deveria produzir-lhe sintomas desagradáveis que tratava de aliviar. É o que hoje seria a gastrite causada pela angústia do corre-corre e outros conflitos, sabe-se lá!
O querido tio da gurizada, meus vizinhos e de quem bem me lembro, freqüentava as rodas mais glamurosas da cidade. Fosse no clube, onde se reunia com a turma do jogo carteado, ainda que raramente jogasse, como nos bares dos hotéis, que, na época, eram pontos importantes das reuniões, principalmente de homens. Incluindo aqueles que tinham a mesma profissão de caixeiro-viajante e com os quais não faltava assunto. Pois um homem com essa pinta descrita, dotado de boa educação, finesse e bom gosto, era, sobretudo, uma pessoa que gostava de viver uma boa vida. E sabia faze-lo! E boa vida de homem, inapelavelmente, incluía vida noturna e.......mulheres. Muitas vezes, depois das reuniões em roda grande, no bar do Hotel Brasil ou nas magníficas dependências do bar ao ar livre do Hotel do Commércio, as quais se prolongavam, às vezes, até depois da meia noite, aos poucos os companheiros casados se retiravam para suas casas e Tio Jaime e outros da sua condição, movido por um sentimento “arrabalero” e, especialmente, mulherengo, com o chapéu de feltro ajeitado de forma levemente inclinada para a frente e para o lado, encobrindo levemente parte da testa e visivelmente dotado de um ar sequioso e apetente, que tornava seu olhar com as suas sobrancelhas assimétricas, uma arqueada e outra não, dono de um ar enigmático, lá se ia ele para o cabaré mais próximo e, segundo dizia, o mais charmoso de sua época, que ficava alí na rua 3 de Fevereiro, bem no centro da cidade, o Alfaya.
Uma vez, observei-o ao arrumar-se para sair à noite, uma verdadeira cerimônia, durante a qual, certamente, sonhava com os acontecimentos da noite mais tarde. Naquele dia, era verão, vestiu-se de branco, de linho impecavelmente branco, sapatos trissé, gravata borboleta em tons de amarelo e beije e chapéu de fibra vegetal combinando com os sapatos; feito como se fosse de tela e próprio para o calor. Aquela figura me encantava, aguçava-me as super fantasias, sei lá quais, e por isso, embora eu fosse um guri e como todos nós guardamos muito bem e em lugar especial as coisas que nos emocionam, memorizei tantos detalhes deste tio, é verdade que emprestado dos guris da minha zona.
Uma vez, descobrimos, uma senhora muito bonita e com um ar de certo mistério, que havia visitado a família do tio na sua ausência a especular sobre suas andanças e quando chegaria; era a mesma que a vimos saindo do bar do hotel com ele e a mesma que morava em uma rua e naquela quadra em que tio fora visto sair de uma certa casa com freqüência. Até que concluímos, ao mesmo tempo que o sobrinho mais velho deixou escapar furtiva confissão, que aquela era a amante do Tio Jaime. Uma mulher, para aquela época, balzaquiana e linda de verdade, para exercer a função de nossa tia, pensávamos, dotada de uma particular sensualidade e que ele bem merecia! Uma vibração!. Mas não seria só esta a descoberta relacionada ao assunto. Anos mais tarde se soube que Tio Jaime cultivava outras relações semelhantes em outras duas ou três cidades, o que naquele tempo o transformava em um galã, um mulherengo.
Os anos se passaram e a figura do Tio Jaime, com todo o seu tipo bem construído, foi se distanciando de nossas vidas, mais especialmente dos meus valores e contatos. Vinte anos ou mais se passaram, quando um dia soube que ele havia morrido, de morte natural, aos 75 anos.
E hoje, ao escrever estas lembranças, constato, não se fazem mais solteirões deste tipo. Naquela época, havia uma certa convicção para viver a referida condição, o solteirão era valorizado, era sinônimo de disputa entre as mulheres, principalmente se fosse evasivo, dotado de glamour e de dotes pessoais criativos, quanto mais, se entre estes dotes houvesse um pouco de dinheiro. Hoje não, o solteirão, dada a facilidade de aproximação e a multiplicidade de oportunidades de relação com as mulheres, incluindo a sua liberação de comportamento, o solteirão é visto como um incompetente na arte da conquista, uma pessoa que tem problemas de relacionamento e nas questões do vai-e-vem interpessoal. Bem como, e de outra parte, as próprias relações duradouras estão desvalorizadas.