Dona Nira era uma velhinha de seus mais de setenta anos, quando começou a apresentar algumas queixas que a levaram a consultar-me. Referia que tinha uma espécie de dormência nos membros inferiores,"uma angústia nas pernas", dizia ela, mais precisamente da metade das pernas para baixo, até os pés. Uma sensação que, inicialmente, pensei ser uma polineurite carencial ou diabética, devido a idade, ou uma compressão poliradicular por espondiloartorse mas, incluindo os exames inexpressivos de laboratório e radiologia pouco alterada, nada de mais consistente tinha que permitisse um diagnóstico claro. Fez exames mais aprofundados que iam além da rotina, foi-lhe solicitado um eletromiograma e uma avaliação pelo cirurgião vascular, pensando-se, também, na possibilidade de algum problema angiológico, como varizes ou mesmo oclusão vascular arterial. Evidentemente, que os exames não foram todos feitos de uma só vez que ela, aos poucos, ia completando e trazendo ao consultório, sempre com resultados normais. Não havia sinais de diabete, o exame elétrico dos músculos e nervos nada revelou e os sintomas permaneciam infernizando a vida da velhinha que dizia não mais conseguir conciliar o sono por culpa da sua queixa.E já apresentando sinais nítidos de perturbação emocional pelo seu sofrimento crônico. Ainda sem a posse do resultado do exame do cirurgião vascular, num recurso extremo prescrevi vasodilatadores de forma empírica pelo período de trinta dias, ao fim dos quais a paciente voltou sem referir melhoras. Foi, então, prescrito vitamina antineurítica, também sem nenhum resultado e, nesse meio tempo, ela compareceu com os resultados do último exame que faltava, no qual também nada foi encontrado. Sendo que o sofrimento da doente produzia, também, uma angústia em mim, seu médico, em um desconforto íntimo por não conseguir ajudá-la.
A pobre paciente vinha ao consultório sempre acompanhada de seu marido, um conhecido e bom homem da cidade, trabalhador aposentado do comércio, homem educado, quieto e silente, um pouco mais velho que ela. E que, quando ela não podia vir ao consultório, ou ele me chamava em casa ou, quando viável, vinha ele próprio buscar as receitas. O cidadão tinha uma característica de quando chegava no consultório começava a gaguejar, talvez pela presença do médico, mas demonstrava um interesse muito grande em ver resolvido o problema de sua esposa.
Passaram-se anos e anos, mais de dez talvez, ela passava dos oitenta anos e ele também, as queixas da velhinha permaneciam inalteradas, um verdadeiro suplício. Como passasse a apresentar problemas de marcha, premida por rigidez, foi-lhe ministrado medicação para o Mal de Parkinson e sessões fisioterapia, depois, tranqüilizantes para sua angústia, antidepressivos e todos elas agiam apenas sintomaticamente, pois a queixa básica continuava.E cada vez mais notava-se que a cronicidade da enfermidade não resolvida ia minando as resistências do casal, que, às vezes, mostrava sinais de desespero.
Por um bom tempo, o casal desapareceu do consultório médico, muitos meses talvez, até que um dia encontrei a velhinha internada na UTI do hospital onde trabalhava, atingida que fora por quatro balaços de revólver cal.38. Já havia sido operada de urgência pelo cirurgião geral, quando ali fiquei sabendo que o autor dos disparos havia sido o marido, em ato de desespero, o coitado.Havia tentado contra a vida dela e contra a sua própria, só que no caso dele sim, com sucesso, um balaço na sua cabeça, na frente de Dona Nira, que julgava agonizante.
A velhinha estava lúcida enquanto falava, reconheceu-me e disse:---Foi o meu velho, doutor, foi o meu velho, o pobre se deseperou! E sem saber do desfecho: ---Vá cuidar dele que eu estou bem.
Aos poucos, nos dias seguintes, ela acabou sabendo que o seu velho não sobrevivera ao duplo atentado, entrando em depressão:---Não me salve doutor, dizia ela, eu quero ir para junto do meu velho! Mas a natureza ajudou e Dona Nira se salvou e, tendo alta do hospital. Foi para casa, pedindo pelo seu velho, moravam sós e sem filhos.
Mas logo em seguida ela começou a definhar, parou de comer, acometida de uma grande tristeza. Morreu sentada na cadeira de balanço e foi encontrada com a foto do seu velho na mão. Entendeu bem o seu ato de amor, por certo e nem precisou perdoar-lhe o gesto. Agora, de novo, vivem juntos.