Elyseu Paglioli foi um homenzinho mágico, desses das fantasias de criança. E que nós, feito crianças, também enxergamos, um Gnomo da saúde e da cultura cuja longa passagem por mais de 80 anos quase todos no século XX, trouxe luz à existência. Homem de baixa estatura, tinha a personalidade pícnica, própria de seu biótipo e, nesse particular, teve a companhia de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Napoleão, que eram como ele, baixinhos emprendedores, desacostumados da derrota.
Grande anatomista, passou muitos e muitos anos de sua vida aprendendo em necrotérios, debruçado em textos. E depois de obter formação autodidática e de ter alguma intimidade com Deus, este lhe permitiu e o iluminou para penetrar mais fundo na natureza da sua obra mais preciosa, o corpo humano e de forma mais específica, penetrar fundo no cérebro, onde, segundo alguns, habita a alma. E, foi assim, quando nos primeiros anos da sua medicina, que o estudo e a curiosidade científica renderam-lhe várias teses, tornando-se doutor muitas vezes.
Foi, todos sabem, o precursor da neurocirurgía no sul do Brasil. Operava, nos primeiros tempos, sem anestesia geral, usando tão somente a analgesia da pele, muitas vezes conversando com o paciente durante o ato operatório, o qual, vez que outra, colaborava com o nosso neurocirurgião desbravador. Ainda hoje, determinadas cirurgias para retirada de fócos epilépticos também são realizadas naquelas condições por um neto seu e seu homônimo. Seria por acaso ou por herança e orientação avoenga?
Em 1946, depois da prática médica de muitos anos e já tendo difundido a especialidade, junto com outros colegas, Frederico Ritter, Ivo Correa Meyer, entre outros, fundou o Instituto de Neurocirurgia de Porto Alegre, o qual foi o berço da melhor neurocirurgía brasileira que, até hoje, põe em prática. Durante muitos anos, até 1960, no Instituto se operava 100% dos casos neurocirúrgicos do Estado e da Região. E, ainda, na prática neurocirúrgica ali levada a efeito, criou e desenvolveu várias técnicas e procedimentos difundidos no mundo inteiro.
Nesta época inicial, José Ribe Portugal, também, destacava-se no Rio de Janeiro, Mattera em Buenos Ayres, Alejandro Schröereder em Montevidéo, que floresciam como precursores da neurologia e da cirurgia neurológica. Do uruguaio Schröereder, contava ele, que, certa vez, iniciou uma conferência em um congresso panamericano da especialidade, dizendo:
--Nosotros uruguyos somos campeones de las dos pelotas, la del fútbol y del quiste hidático. No quê não foi contestado. Era uma alusão picante à recente Copa de 50 que “ganó Obidúlio Varela”, lembram?.
Amigo de Getúlio Vargas, a quem admirava e respeitava, foi ser seu ministro. Como essa nova função lhe absorvia sobremodo, afastou-se de Porto Alegre deixando em seu lugar o seu zagueiro-central, Dr.João Dahne, no comando de um time de grande futuro. Futuro esse que são os dias atuais. O próprio Dr.Dahne, contava que, na época, chegava a operar 200 casos por ano, o que certamente lhe conferiu uma experiência difícil de ser alcançada. Além de ter sido este também, um homem bom, um rastro de saudade.
De volta do Ministério, Elyseu Paglioli prosseguiu na sua atividade de cirurgião, sempre no Pavilhão São José da Santa Casa, sede de seu Instituto. Mas, pelo prestígio alcançado até ali, foi ser Reitor Magnífico da UFRGS, posto que ocupou e que muito bem desempenhou, por muitos anos. Muitos dos prédios existentes, hoje, na Universidade, são obras dele, inclusive o prédio da Reitoria. Amigo da cultura e dos estudantes, por quem era apreciado e admirado, o nosso Gnomo fundou, entre outras coisas, o coral universitário. E, apaixonado pela música, despojava-se de sua envergadura passando longas horas assistindo aos ensaios, sem faltar, é claro, às apresentações oficiais.
Fora a profissão, amava a família, os amigos e o seu esporte predileto, a caça. E, junto com o seu arquiamigo Stringhini, viajava 1000 quilômetros de estrada de terra num fim de semana para correr lebre nos campos de Cruz Alta, ou perdiz, naquela ou em outras bandas.
E, com toda esta capacidade de usar o tempo de forma frutuosa conforme a sua predestinação, ainda sobrava-lhe energia para ter vida social com o mesmo prazer e empenho, tendo sido o idealizador e empreendedor do Guaíba Country Clube e, é provável que as centenas de pessoas que lá tem seu lazer, mal saibam disso.
Assim, tendo sido feito à sua imagem e semelhança por vontade divina, Elyseu Paglioli reinou sobre o seu mundo qual um soberano, que passou para a história tão somente por suas muitas virtudes, como a bondade, a fraternidade, a solidariedade, a criatividade, a paternidade, a humanidade, a curiosidade, a lealdade, a sobriedade, a honestidade, enfim, virtudes que não lhe faltavam e pelo muito que criou e edificou, cumpriu um desígnio arquetípico e com tanta criação, se assemelhou, sim, ao Criador.
Em março de 1971,aconteceu a Jornada Neurocirúrgica, em comemoração ao Jubileu de Prata do Instituto de Neurocirurgia. Naquela época, éramos parte de um grupo de residentes de seu Instituto, para onde entramos pela mão do Dr.João Dahne. Durante aquela jornada comemorati-va, podia-se encontrar especialistas do mundo inteiro, europeus e pan-americanos que, aqui, vieram ratificar o prestígio de Elyseu Paglioli e de sua equipe.
Durante a residência médica, a seriedade e o respeito eram a balisa inicial de nosso relacionamento, sendo uma ventura e motivo de muito orgulho entre os novatos e do qual, em algumas vezes, compartilhei, poder operar com o provecto mestre.
Arguto e espirituoso, nós médicos residentes, certa vez fazíamos farra com um bolinho frito, duro como uma pedra, retirado do almoço trazido aos aposentos do plantão pela servente Célia Schwab, o qual servia para fazermos um futebol improvisado no quarto do plantão, em meio a grande algazara que foi por ele percebida; entrando de surpresa no ambiente e, rapidamente, percebendo que a causa era o bolinho, deu de mão em um similar da bandeja, saboreou e disse:
--Hum, gostoso esse bolinho, nem na minha casa eu como coisa assim! Acabando com a algazarra e não nos dando chance de reclamar da condição pétrea do alimento.
Lembro, ainda, de uma estória que contava, que lá por São Francisco de Paula um gringo falava de uma façanha feita num caminhão daqueles antigos, que fazia tanta força e gemia tanto na subida da serra que chegava a "espissá o sassís". E como, se não bastasse o que patrocinava à vida, ainda detestava o cigarro, o qual inculpava pela morte de um seu irmão e contra o qual se debateu, por muitos anos, em relação ao vício do amigo Dr.Dahne, com quem, indireta e passivamente, fumou maços e maços na salinha dos médicos.
Nosso personagem tinha a ventura de amar a figura das mulheres, depositárias de seu ardor varonil e a quem, como Gnomo, também encantava; mesmo assim, como naquela época começavam a se desnudar os joelhos das mocinhas(e até um pouco mais), ao mesmo tempo que sumiam os maiôs e diminuía o tamanho dos biquínis ele, indignado com tal despudor, lascava-nos:--Mulher a gente péla é na cama!! Dizia isso baixinho e ao pé do ouvido. Mesmo assim, não dispensava o gesto de distribuir guloseimas às várias mocinhas que o rodeavam amiúde, recebendo de volta transfusões de vida.
Se a memória de todos nós falhasse, não falharia a imponência e a eloqüência da obra física e espiritual de Elyseu Paglioli, do qual se comemorou o centenário de nascimento a algum tempo já, para a glória das virtudes que semeou. Mas, como ela não falha, é ainda ajudada ainda pela emoção dos encontros científicos, em que é lembrado por seus alunos e que diz que ele ainda vive em tudo que construiu, mas sobretudo vive no seu filho, nas suas filhas, nos seus genros, nos seus netos, nos colaboradores mais chegados que o respeitavam e admiravam, bem como vive em toda sua venturosa família e em todos nós que tivemos a chance de, um dia, admirá-lo em pessoa.
Pois, apesar de ser aqui chamado de Gnomo, não era mágico de fantasia, era um homem normal que se fez excepcional com seus braços e sua inteligência, mas sobretudo usando de mais uma especialíssima virtude, a criatividade com determinação que lhe eram intrínsicas. E dirigiu, com rédeas seguras e obedientes aquilo que o vulgo chama de destino.
Esta pequena sinopse foi, apenas, uma abreviatura de a sua carreira e da sua obra, deste homem incomum que por ser vocacionado a doador, Deus deu-lhe duas mãos grandes, desproporcionais ao seu físico, mas proporcionais à sua capacidade de fazer o bem. Pois,
assim como uma cruz de estrelas mostra o sul
e outras de igual sorte, mostram o norte,
outras, ainda, com mais ou menos sorte,
indicam a morte! J.B.T.
Pois já a vários anos atrás ele vislumbrou uma estrela a lhe indicar este caminho e subiu. Subiu deixando um rastro cristalizado em seu cami-ho. Certamente não morreu, porque, por certo, os gnomos não morrem. E, como tal, o Gnomo Elyseu deve andar encantando e cintilando em outros mundos e em outra dimensão, enchendo de estrelinhas miúdas tudo que toca.