Daquela turma que morava no Ed.Noal, ap.8, no início da Rua Dr.Bozano em Santa Maria, até hoje os que permaneceram convivendo mais amiúde fomos nós, o amigo João Desidério e eu.
Pois, naquele ano glorioso de 1963, fomos nos juntando aos poucos, até formarmos uma turma cujo ingrediente inicial e depois permanente, seria o respeito no convívio, o que nos possibilitou morar juntos durante muitos anos(alguns ficaram juntos por sete anos), de forma amigável e muito bem. Chegamos a ser um total de oito moradores, ao mesmo tempo, todos inesquecíveis por um ou por outro detalhe, sobretudo ligados por simpatia e afeto sadios; uns de Bagé, outros de Dom Pedrito e durante alguns anos mantivemo-nos assim. O que só foi modificado com a conclusão dos cursos que alguns cumpriam gradativamente.
Além das qualidades pessoais de cada um, tínhamos dois objetos que materializavam a alegria e que nos uniam; éramos muito festeiros, comemorávamos qualquer coisa desde que fosse em uma sexta-feira à noite ou num Sábado e, religiosamente, ao som da gaita do Desidério. Tomando caipirinha num penico alouçado. Sim senhores, logo na montagem do apartamento o dito vaso noturno foi comprado numa ferragem da mesma rua e, depois de ajeitado um bico no objeto, foi feita a sua inauguração solene com seis limões cortados e amassados, açúcar a gosto e o líquido precioso que nos aquecia nas festas de inverno e, porque não, também, nas de verão. Fosse nas noites em que era servida massa com sardinha, minha especialidade, e que era o prato de comemorações menores, como apenas pelo prazer de se estar vivo, ou nas noites de galinhada, feita com galinha roubada na redondeza e algumas vezes convidando o próprio dono para provar, para comemorar algum aniversário ou uma boa nota na escola. Ou, por fim, fosse em churrasqueadas feita no terraço do edifício, sempre mais para o lado da primavera ou outono, no início do ano letivo e, dependendo, até no grosso do inverno, porque não?. Pois, fosse como fosse aquele penico andava a noite inteira de mão em mão, fazendo sua fama (aliás, esse penico ainda existe e mora em Florianópolis).E, mais para o final da festa, era a gaita do Desidério que abria o seu fole milongueiro. Eram estes os dois ingredientes responsáveis pela alegria da festa, a gaita e um penico. A desgraçada soltava sons que mexiam com a alma de nós guris, alguns apaixonados pela realidade de suas namoradas e noivas, outros pelo descorno de não tê-las. E os tangos e boleros tinham os tons que embalavam nossos sentimentos, em corações enamorados; no mínimo pela vida em um tempo de nunca mais.
Um ano mais tarde do início deste convívio eu entrei para a faculdade e passado algum tempo, nos meses iniciais de júbilo pela sensação de ser doutor, (na verdade é uma época em que a gente é nada mais que uns cocôs de doutor), em que muitos alunos estranhos se conhecem, aproximam-se, os mais afins se afinam e se formam novas e ricas amizades. Pois foi assim comigo e com mais dois, nos tornamos chegados por muitas circunstâncias estudantis, depois por afeto e, próprio da idade, por causa de muita festa. Foi então formado por nós um grupo de seresteiros, os quais revigoraram a quase desusada seresta nas noites de sexta-feira, em Santa Maria. Éramos três numa lambreta; sim, três. Um motorista, que sentava bem na ponta do banco do nosso minguado veículo, um cantor, que era eu, magrinho e sentado no meio e um instrumentista, virado para trás carregando a sonora..... a gaita do Desidério. E ainda fazendo alguns floreios em movimento com a pobre gaita emprestada, a qual cumpria jornada dupla. Ah, tempos, quê beleza! Quanto professor recebeu seresta em véspera de provas sem mesmo nos conhecer mais além que dos bancos da faculdade. Muitas serenatas foram dadas com a gaita do Desidério, (sempre sem ele, que como homem caseiro que era, se limitava a ficar em casa escutando futebol num radinho Phillips verde claro, ou escrevendo e lendo cartas da sua única namorada até hoje, a Zoila, lembra amigo?). A maioria das serenatas era para professores, alguns deles até, pela repetição, deviam sentir um certo arrepio ao ouvir, na calada da noite, o ronco (trrrrrrrrrrrrrtatatatatatata) da nossa lambreta festeira.
Uma professora de bioquímica, Profª.Olga Fishmann, até então solteira e com risco de se tornar passada do ponto de casar, sempre nos recebeu muito cordialmente e tinha, por bem, brindar-nos e aos nossos arroubos de músicos da velha guarda(Frenesí, Besame Mucho e até Granada, com direito a sapatear em cima da mesa de jantar, quando não, eu próprio declamava poesias de gosto duvidoso para a ocasião, como"No Bolicho" e outra que dizia assim: "Eu sou um bagual cansado, que esterco e cheiro na bosta, boto a cola nas costas e saio, pererê, pererê, pererê!", muito própria para quando já se ia embora).E éramos brindados por ela e sua velha mãe, com um terrível licor de ôvo, próprio da cultura judaica à qual elas pertenciam, um legítimo destronca peito que até parecia um espantalho enjoativo, para que não se voltasse mais lá; mas, qual nada.
Certa vez a festança foi mais encorpada que o habitual e passamos na hora e quando nos demos conta já eram oito horas da manhã. E, naquele sábado, teríamos aulas extras de anatomia, deparando-nos então com um problema: "Onde colocar a gaita?". Solução só encontrada quando levamos a gaita para dentro da aula e a escoramos num canto da sala, bem na entrada.Com a maior cara de pau e com os olhos inchados de sono e outras milongas.
Mas foi num fim de ano letivo, com boas perspectivas de aprovação para todos, que se deu um grande "quiprocó", envolvendo aquela melódica sanfona. Um certo fim de noite, desta vez éramos vários, uns seis ou sete, depois de muito embalar o sono de alguns e algumas com nossas serestas, sentindo que ainda restava-nos fôlego. Todos se propuseram, então, a ir dar uma olhada num fim de baile no distrito de Camobí onde, segundo a crença daquele dia, existia quantia de moças bonitas, nossa pretensa especialidade. E fomos numa picape emprestada pelo pai de um dos participantes. Mas, qual não foi a nossa decepção, quando lá chegando deparamos somente com uma tremenda restolhama, como dizem na campanha, e o baile já pendendo para os acordes finais. Quando só nos restou fazer algum saracoteio de adolescente desacompanhado, voltar tocando gaita e fazendo barulho. Eram quatro de nós sentados na cabine (eu, inclusive, que era magrinho, vinha sentado entre o motorista e a porta da esquerda, para dar espaço para o gaiteiro abrir o fole a seu gosto)e o resto, na caçamba do veículo. E dê-lhe gaita e cantoria!
Não seria de admirar o que aconteceu: numa curva, logo na entrada da cidade, felizmente, em frente ao Santuário da Virgem de Schöenstad, uma santa da qual todos ficamos devotos depois do ocorrido. A estrada estava em construção, havia muito cascalho, tanto em cima do asfalto como nos olhos do motorista(àquela altura!!!). A picape derrapou, deu duas ou três cambalhotas e, quando dei por mim, estava agarrado num poste, com a moleira toda recortada, isso, calculo eu, uns quinze minutos depois, já com muita gente recolhendo os feridos. E quando me conduziram, mal deu para ver a pobre gaita do Desidério esparramada no chão, com o fole esgaçado e o ventre exposto, como nunca havia estado antes em sua vida e em vez de acordes, emitindo lamentos e gemidos. Pois, ainda me lembrei de recomendar a quem me socorreu naquele entrevero:"-- Moço, socorra também a gaita!". O que foi feito.
O gaiteiro, coitado, pela posição em que trazia o seu instrumento musical, levou um tirambaço no queixo e quase atorou a língua, na qual levou quase vinte pontos. Dois dos acidentados foram para o hospital por poucos dias, as famílias quase todas de fora, foram avisadas. Seu Zé Brasil, meu pai, se tocou pra lá e ainda teve que atravessar um enorme peludo ali pelo Passo do Verde, onde ainda não tinha asfalto. E só chegou em Santa Maria com o ônibus puxado por uma daquelas Catterpillar amarela. Ou seja, uma incomodação completa. Quando nos vimos, ainda me lembro que lhe disse no bem do assunto:---Rasguei toda a minha roupa "de morrer"(como se dizia da melhor roupa naquela época). Ao que ele retrucou, inteligente que era:---A "de morrer" eu garanto que não foi!
Passado alguns dias em que as feridas já se haviam curado, nós, o trio musical que atendia pelos nomes de Negrão, Baixinho e Mixuruca, que éramos os mais chegados e responsáveis pela gaita do Desidério, tomamos a providência de mandá-la para conserto na própria fábrica e, ao cabo de uns quatro ou cinco meses, entregamos a dita de volta ao seu dono.
Em sessão solene e festiva, em que a artista principal continuou sendo a própria gaita. E passado algum tempo de natural retração, ela voltou para a noite, com muitas recomendações de juízo e prudência, mas mandando muita milonga!