quarta-feira, 23 de abril de 2008

Espelhos de pai

Dias atrás, faleceu uma pessoa de minhas relações de camaradagem, um cidadão ao mesmo tempo sisudo e alegre, respeitoso e trabalhador; e a quem, volta e meia, eu dedicava uma piada fresquinha para rirmos juntos. Mas que, no entanto, resistia às minhas investidas para que deixasse de fumar. Carlos Alberto Saliba, chamava-se. Entretanto, foi possível constatar depois do infausto, que ele valia mais do que a nossa camaradagem pudesse imaginar, a julgar, entre outras coisas, pelo luto decretado que fechou as portas do escritório onde trabalhava, como também pelas palavras, entre outras tradutoras da verdade, ditas por seu patrão e companheiro, ao comentar sua perda: “Quebraram-me os braços!”
Quando se morre, é comum que nos tornemos um pouco melhor do que éramos em vida e até um indulto amplo é quase a regra. Mas, ao bom observador desta regra cabe uma filtragem acurada, como no caso.
O cidadão em questão deveria ser bom mesmo, maior ainda que o transparecido em nossa relação transitória, principalmente, a julgar pelas singelas, sinceras e singulares palavras ditas por sua filha Lucéli, em publicação de jornal da cidade Onde disse algo como: “.... e nenhum livro contará estórias como as que tu contavas para mim.” Somente um bom pai inspiraria esta construção sincera de saudade, não é mesmo? E mal saberia ele que logo de sua morte serviria de espelho para ela.
E, lendo aquilo, me transportei, então, para quase quarenta anos atrás, quando meu pai faleceu, de forma violenta. Seu José era um homem reto e respeitoso, que entendia que o direito das coisas tinha somente um lado; inteligente, justo, apologista do certo, amigo leal, homem correto e franco; mas, era sobretudo um opiniático contumaz e invergável, quando estava com a razão. Como se diz na campanha: “era homem de lombo duro” que “corcoveava” fácil, até mesmo com os arreios.
Com uma personalidade assim, seria fácil compreender que fosse de difícil relacionamento com quem tivesse uma visão de vida adolescente. Motivo pelo qual, àquela época, a minha percepção da sua estatura e grandeza não era a mesma que o tempo de hoje me fez ver, por completo. E, naqueles dias, não me animaria publicar construções saudosas, ainda que choroso. Além do quê, por que quando em seu leito de morte manifestou-se preocupado sobre meu futuro; “como se eu não pudesse me conduzir”, pensei eu. Talvez, temendo as conseqüências de minha intensa vida boêmia de então e hoje de há muito abandonada. Foi o que pensei, a contragosto, e sei hoje que ele mais uma vez tinha razão.
Ao longo de nossa separação, desde então e por conta dos muitos anos que se passaram, muito amadurecimento lentamente semeou-me os pensamentos e um maior entendimento adveio! Para a ventura de ter uma visão mais justa e correta do pai que tive. E tenho.
Neste tempo, foram incontáveis as pessoas que sobre ele teceram considerações elogiosas como cidadão e amigo, nunca o contrário, para meu gradativo orgulho.
E, sobretudo, hoje, entendo a proteção constante que sempre tive de um “especial anjo da guarda” e que muitas vezes, no perigo, "segurou-me pela gola"; um anjo que leva seu nome. É uma força protetora de energia infalível, conhecida e familiar. E a qual dedico, diariamente, um beijo em sua foto e uma conversa de pé de ouvido. Meu bom exemplo, meu espelho!