quarta-feira, 23 de abril de 2008

Era uma vez um filho

Ainda que aproxime dos leitores, para não correr o risco de parecer presunçoso, um cronista não deve falar de si e de suas circunstâncias mais íntimas; entretanto, pode ser que agora isto sirva de algo mais.
Quando nosso filho tinha oito anos, fomos surpreendidos pelo seu acometimento de uma grave e rara enfermidade, um enorme câncer que comprimia-lhe o mediastino, invasivo entre os pulmões. Naqueles dias, apesar dos esforços, não se conseguiu fazer um diagnóstico histologicamente preciso, porisso e malgrado a pouca esperança, foi-lhe ministrado um longo tratamento como se aquele fosse o pior tumor em malignidade, à base de radio e quimioterapia prolongada. Embora médico, eu agia somente como pai, dotado desde o início de grande esperança, até mesmo ao contrário das expectativas dos profissionais. Passaram-se os primeiros dias e meses de angústia mais intensa, o tumor gradualmente regrediu, a esperança geral aumentou, ao cabo de três anos o menino foi dado como curado e até os dias de hoje, em revisões anuais, nada mais encontrou-se.
De tudo, entretanto, restou uma apreensão em nós, pais, ainda que sem a participação do paciente, desde o início, com a concorrência dos médicos que o atenderam, qual fosse a ameaça de que as manobras terapêuticas destinadas à cura tivessem tido efeito deletério em sua condição procriativa, dado o grande volume de quimioterapia e radioterapia feitas ao longo do tempo. Aliás, já ao final, era esta a única dúvida que restava ao seu médico.
Mas, afinal, para nós, o filho estava vivo e são, era o bastante. E, se daquele episódio passado, restaram-nos algumas lembranças amargas, sobraram-lhe experiências de uma luta que o transformou em um filho de extrema docilidade, equilibrado e com marcada noção de certo e errado, um adolescente querido de todos, responsável e moralmente acima da média, que logrou aprovação no colégio e, de primeira, no vestibular. Neste particular, conseqüente à insatisfação pessoal, desistiu do curso que iniciou e ia tentar outra carreira. Para nós pais, que chegamos a antever e chorar a sua perda, estava além do bom, era o que pensávamos.
De súbito, não nos parecendo ser para provar nada, a não ser seus bons motivos íntimos e sentimentais, há quase dois anos ele deu-nos uma neta; Vitória se chama ela. Nome, aliás, que pode ser interpretado com duplo sentido devido ao risco passado pelo pai, transformando a vida dos quatro avós( bôbos) em pura alegria e, finalmente, a ponto de entenderem o que dizia Oswaldo Aranha, que "os netos são os filhos com açucar".
Sempre fui contra e várias vezes escrevi aqui sobre minhas severas restrições aos filhos na adolescência, fosse por problemas físicos da jovem mãe ou pela imaturidade dos pais para a criação. Pois nesta ocorrência, talvez, também, por que tiveram todo o apoio da família, minhas teorias foram por águas a baixo.
E, em mais este lance de vida, além da Vitória, da mãe pacienciosa que lhe amamentou ao peito, dos dias que a neta passa na casa, ora de uns avós, ora de outros, o que mais alegrou-nos a atenção foi a constatação da vocação paternal do nosso filho, que desde a gravidez levava a "esposa" à médica, que andava de ecografia em punho para mostrar sua filha, que assistiu à cesareana e que quando pode passa 24 horas lambendo a cria, com inédita responsabilidade.
E a nós, os pais do pai, resta-nos constatar, com resignação: ganhamos uma neta e novas e boas experiências, mas perdemos um pedaço grande do filho. Principalmente, por que agora, em cumprimento aos estudos e para sair de baixo das asas, foi estudar longe de casa. E, como foi um dia com muitos de nós, para nunca mais voltar a ser criança. Enfim, disse Khalil Gibram: "Teus filhos não são teus filhos....."