As ciências, que se encarregam de estudar a forma como as pessoas adquirem suas características pessoais: emocionais, sociais, culturais e psicológicas, as quais vão formar o perfil de cada um, no século que passou, que se fez pleno da luz do conhecimento, e no presente, dão-nos conta de dados e roteiros peculiares e interessantes nos caminhos que levam à formação humana como ser psicossocial.
E como construímos o que somos?
É do conhecimento corrente que a filiação, ou seja, a genética, tem uma forte influência na formação dos descendentes; assim tem muita chance de possuir olhos azuis, cabelos claros e pele pouco pigmentada um filho de alemães ou descendente de qualquer país nórdico. Assim também acontece com as características biológicas de outras raças, seja indígena, nipônica, negra, pelas quais somos capazes de identificar as ligações de ancestralidade com muita facilidade e apenas pela observação.
Partindo-se do pressuposto que os indivíduos da presente análise são fisicamente saudáveis e com um funcionamento cerebral normal, com a personalidade de cada um ocorre a mesma coisa. Algumas características comportamentais das pessoas são herdadas – como o temperamento ou o humor, que vão formar o seu perfil futuro, ou seja, o ser social e que vai estar envolvido em todas as formas normais ou excepcionais de relacionamento, incluindo o ser analisado e apreciado pelo juízo da sociedade.
No entanto, diferente da cor da pele, dos olhos ou dos cabelos, que são fortes manifestações de características genéticas a formar a figura visual do indivíduo, o psiquismo, que dá origem ao indivíduo de relação social e emocional, mesmo tendo algumas características originais desde o nascimento, como são aquelas, é amplamente submetido às influências do ambiente na sua formação durante a criação de cada um. O que é de entendimento comum e pacífico, seja pela observação leiga ou pelas conclusões científicas. Assim, principalmente no terreno das emoções, conhecidas como altamente contagiosas, riso e bom humor, medo e choro, raiva e agressividade, insegurança e desamparo – uma pessoa que cresça cativa de um ambiente onde uma delas – ou várias - seja a influência marcante estará muito propensa a adquiri-la, de forma introjetada em sua personalidade. Da mesma forma, a cultura e as condições que a balizam, como é o exemplo do conhecimento e das crenças, exercem fundamental influência – mais talvez que a hereditariedade, sobre o quê será quem no futuro. Podendo-se, inclusive, teoricamente e de maneira aproximada, prever que de um determinado ambiente emergirá tal tipo de pessoa, sendo infinitas as variáveis.
As pessoas formam-se, então, às custas da sua carga genética relacionada à mente, situada no cérebro, o que Freud chamou de ID. O qual vai interagir constantemente com o ambiente – com a cultura, a instrução, a capacidade aprendida de controlar as emoções, as atividades sociais e laborais, as relações interpessoais etc – e que exercerão considerável, senão enorme, influência no todo em que se constitui um ser humano, sob este ângulo de observação.
Eleonor Rossevelt, serve de exemplo de como ocorrem estas influências, mas nem sempre de acordo como a expectativa, que no caso dela deveria ser sombria.
Ela foi uma mulher que se deu conhecer ao mundo de forma a que este pudesse julgá-la como de excepcional grandeza, cuja maior característica foi a liderança, o desprendimento e a capacidade de doação aos outros. Nela a bondade foi descoberta como uma forma de ser feliz, uma percepção que só tem aqueles que experimentam tal virtude e que a tomam como prática. Ainda que muitas vezes sejam incompreendidos. Por conta de suas virtudes e nunca por ser sobrinha de um presidente da república e esposa de um outro, ocupou postos da vida pública nunca dantes pisados por uma mulher – incluindo a de embaixatriz na ONU, sendo uma feminista sem teoria, uma real desbravadora dos difíceis caminhos para a mulher de hoje e do amanhã.
Ao ficar órfã de mãe, foi criada por sua avó paterna desde o final da infância até a adolescência. Teve sua educação finalizada na França, onde desde logo passou a exercer suas características de liderança sobre suas colegas de internato, no que foi estimulada e reconhecida pela preceptora. Tornou-se confessora de algumas delas para as quais até escrevia cartas e servia de conselheira para muitas.
Ao voltar para sua terra, com o passar dos anos acabou esposa de um homem que seria depois presidente do Estados Unidos da América, o qual, ainda que não a desconsiderasse como a figura proeminente que sempre foi na sociedade e, especialmente, na filantropia, por ser um homem de amantes e libertinagem, a desprezou e desrespeitou como esposa. Levando-a a padecer um tipo de sofrimento que só ela, como mulher, conheceria e que só a ela seria dado descrever, o que desconheço. Um sofrimento que emendava ou repetia as considerações negativas que eram feitas por sua mãe a seu respeito, na idade da sua formação mais delicada e tenra.
O conhecimento mais profundo desta senhora equilibrada e eminente, que vai infinitamente além destas informações singelas, torna difícil supor que a qualidade da sua formação, desde o berço até a idade adulta que, além de ser mulher sofrida que teve sua origem no conservadorismo do primeiro quarto do século passado, tenha sido psicológica e emocionalmente tranqüila, sem motivos difíceis ou percalços.
Mulher vistosa que foi na vida adulta, Eleonor era “dentusca” quando pequena. Detalhe, aliás, que a mãe, dando notória preferência a bem relacionar-se com as outras filhas, insistia em destacar para diminuí-la; com ênfase neste e noutros adjetivos que a diminuíam, como incompetência e incapacidade para atos comuns. Um julgamento ancorado em sabe lá que inconsciente materno – maldoso e, na teoria, duramente conseqüente para a filha. Que por certo provocaria dor e levaria à insegurança qualquer criança, influenciando em sua formação de forma negativa, por ferir a sua auto apreciação. Com ela não deveria ter sido diferente. Tal foi o quadro, o espelho sinóptico do seu ambiente original, da sua relação com a mãe, a mão que universalmente embala o berço, que junta os filhos ao calor e à segurança do seio e que os inicia no aprendizado pelo exemplo e na boa compreensão do mundo, ainda que com estranhas exceções.
Não bastasse isso, no ambiente de Eleonor ainda existia um pai alcoólatra. A ciência hoje sabe que o alcoolismo é uma doença biologicamente transmissível por caractéres genéticos, assim como o são algumas patologias mentais, como a depressão psíquica e outros desajustes mentais que lhe são associadas. Como todo o alcóolatra faz, condiciona a sua família a um sofrimento oriundo de sua doença em si, sob o ponto de vista físico, psicológico, moral e social, o que sabidamente depois de um certo tempo gera repulsa no cônjuge, medo e insegurança nos filhos, além de outras repercussões seriamente negativas, em um quadro conhecido ou facilmente imaginado por qualquer observador comum.
Em Eleonor, no entanto, morta sua mãe e indo morar com a avó paterna, o relacionamento com o pai e mais tarde as repercussões desta ligação difícil, mas afetiva, foram diferentes. O pai a visitava com freqüência quinzenal na casa da avó, quando ficavam juntos por muitas horas. Ela o esperava-o com uma agradável ansiedade infantil e filial, a qual frutificava desde um encanto íntimo e que se desenvolvia ao longo dos dias em que aguardava pelo encontro. Passeavam, então, pelos parques, tinham passeios a cavalo e de charrete, longas conversas em que o afeto paterno e filial se entrecruzavam, tendo sido assim por longos anos.
Não sem que, em algumas destas ocasiões, seu pai deixasse de mostrar sua dependência ao álcool. Certa vez, levou Eleonor a um bar, deixando-a a esperar, enquanto ele saciava sua sede. Ela ficou esperando-o, sentada na escada da entrada, por longo tempo; até que um funcionário do bar ao notar a longa espera da menor, compadeceu-se dela e perguntou o que fazia, ouvindo em resposta de esperava pelo pai. Sabendo, então e depois de mais de quatro horas, que o pai havia saído de há muito por outra porta, embriagado.
Ao verificarmos o ambiente em que Eleonor cresceu, com um pai afetuoso mas dependente do álcool, com uma mãe como a descrita e o conseqüente lar desajustado, associado à criação antiquada da avó, é de se perguntar: Eleonor Rossevelt tinha mesmo tudo para ser muito bem sucedida, como o foi? Terá sido a boa relação afetiva com o pai a sua baliza exemplar mais marcante, exercendo o diferencial? Ou, então, a forja íntima da pessoa humana tem valores que só a individualidade conhece, uma especificidade de reação redentora. Em alguns casos,é provável, como em Eleonor Roosevelt.