Há muito tempo atrás escrevi e foi publicado um artigo sobre os ídolos, onde tentei explicar os meandros da idolatria e creio que de tal me aproximei, tendo em vista a boa repercussão obtida. E lá, a certa altura e me referindo mentalmente à figura do, naqueles dias, recém falecido Renato Russo, assim escrevia: "Mas existem ídolos que por fugirem da minha época, não me emocionam tanto, não sendo totalmente incompreensíveis. São os recentes ídolos aflitos(talvez porque o mundo seja mais aflito),que se pervertem, se drogam, se neurotizam e, em meio às loucas emoções que provocam nos outros e em sí próprios, se suicidam. E viram deuses no coração da juventude que, por serem jovens entendem exatamente o que dizem e clamam seus heróis, numa especificidade de emoções que só nos cabe respeitar.....e meditar".
Mas vejam bem como as idéias são dinâmicas e sofrem a ação do movimento dos fatos, a ponto de que depois daquilo, revirando na memória encontrei outros exemplos quase que exatamente iguais ou no mínimo com os mesmos motivos de vida, embora com desfechos desiguais. Refiro-me primeiro a Nelson Gonçalves, um ídolo nacional, um mestre na interpretação das chamadas músicas de seresta, que tão bem falou das dores de cotovelo de toda uma nação, que até há alguns anos encantou tantos admiradores e, até perto da morte, ainda enchia casas de espetáculo. Pois aquele intérprete do amor, seus encantos, encontros, desvios e sofrimentos, numa fase negra da sua vida foi viciado em cocaína, de forma contumaz; à ponto de ameaçar fortemente a vida ou sua qualidade. No entanto teve a sorte de encontrar uma esposa que se empenhou na dura e árdua luta de ajudá-lo a se livrar do vício, que para tanto encerrou o artista dentro de uma casa, qual uma prisão, durante meses, somente permitindo a entrada de alimentação e do apoio afetivo que lhe era dado de fora. Até que, ao fim de um sofrido tempo foi libertado um novo homem, que desapareceu quase octogenário e ainda encantador.
Dezenove de janeiro é a data em que lembramos a morte de Elis Regina, deusa da interpretação, com semelhantes características. Donde ela era natural eu não sei ao certo, só sei que para o mundo ela nasceu num programa de auditório aos domingos pela manhã, comandado por Maurício Sobrinho, na Radio Farroupilha, já lá se vão quase 60 anos, certamente. Parece que era Clube do Gurí, o nome do programa. Pois à partir dalí, aquela gauchinha de feições delicadas e que por muito tempo carregou um rosto de menina, alçou vôo, explodiu no Brasil inteiro com "Arrastão" e foi encantar a nação e o mundo. Dali para a frente, foi parceira e intérprete de muitos autores em milhares de execuções e desempenhos, além de ser a preferida dos maiores autores da nossa música. Dela, tenho 6 ou 7 discos e ainda pretendo me atualizar em seus CDs; sou admirador de sua obra, assiti ao show "Dois pra lá,dois pra cá" e "Falso brilhante" e não me sinto defasado ou em falta quando se fala de sua vida musical.
Em "O Predador de sí próprio", que um dia publicarei aqui, falo sobre porque morrem as pessoas, onde concluí que, o mais das vezes, elas falecem vítimas de si próprias e, freqüentemente, por inaptidão para a vida. Qualquer coisa como vítimas de seus defeitos e da incapacidade ou inoportunidade de corrigi-los. Elís Regina quando saiu do sul para o centro do país, numa ambientação emocionante para sua ascenssão e sua queda, esqueceu no Rio Grande, a meu ver, a bagagem da humildade, que foi extraviada para sempre, adquirindo por lá uma impafia que lhe foi inoculada no momento em que começou a falar chiado, a qual lhe gerou a insatisfação com a vida e, talvez, com o total de seus desencontros.
Vitor Mateus Teixeira, o Teixeirinha, foi um ídolo de sua gente e de seus admiradores, de origem humilde, assim permaneceu por toda a vida, ao menos no que nos chegava à avaliação, tendo uma visão exata da sua dimensão artística. Pois, certa vez, numa vinda à Porto Alegre, Elís foi perguntada, numa entrevista, se gravaria uma música do Teixeirinha, este ainda vivo e nas paradas; ao que ela respondeu secamente e com ar de desdém:--"Não, eu tenho os meus pruridushshs"! Uma resposta que, além de anti-ética em relação ao colega, evidenciou uma marcante falta de humildade e marcante descortezia.
E por não ser humilde virou insatisfeita com a vida e depois aflita, como foi dito, esta uma condição que gera tremendo desconforto na alma humana. E daí, às drogas, foi presa fácil, que por não ter a humildade de Nelson Gonçalves, não aceitou ajuda. E, precocemente, nos deixou, vítima dela mesma e num mundo cheio de soluções.