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sábado, 28 de fevereiro de 2009

O "Conta Própria"

Com todo o respeito, mas quero usar este exemplo em um assunto de suma importância para comentar sobre a cronicamente aflitiva situação da região e pretensas soluções. Há muitos anos, eu era ainda gurizote, fiquei sabendo que um filho da cidade, desgostoso com a incômoda dependência paterna e talvez da orientação recebida do pai, coisas de adolescente rebelde, pegou sua mochila, pendurou-a na ponta de uma vara e saiu de casa dizendo que ia viver por conta própria. Atitude na qual não foi impedido por ninguém e muito menos pelo pai - que conhecia suas limitações - e também pelo respeito à vontade do filho, talvez. Três dias depois: uma batida na porta. Era o filho pródigo, disposto a rever sua decisão. Não podendo, no entanto, nunca mais escapar do apelido que ganhou naquela feita, O Conta Própria.
Pois este movimento de emancipação da metade sul do estado, polêmico e carente de profundo estudo, a grosso modo, parece-me assim. Senão vejamos: um estado neo-formado precisa criar, de imediato, todas as instituições necessárias ao seu funcionamento, muito caras por sinal. Obrigatoriamente, de cima para baixo e pelos mais dispendiosos, precisa criar um governo e seu gabinete de secretários, um tribunal de justiça com todas as instâncias, um tribunal de contas, uma assembléia, uma brigada militar, um sistema único de saúde com hospitais razoavelmente aparelhados, rodovias, ferrovias, hidrovias (que não possuímos), polícia civil e sistema penitenciário. Tudo isso, mas muito mais e, principalmente, é preciso criar fontes de renda, as quais vêm da produção( no que somos primários e zonalmente precários). E isso, já antes de completarmos o primeiro ano de vida como um novo estado; na instalação estas necessidades tem que estar todas previstas e logo resolvidas. Mas como? Respondo: Será que o exemplo das emancipações de municípios que são verdadeiros arremedos, sem hospitais, sem presídios, sem escolas técnicas e sem comércio, sem ruas e sem esgotos, que vemos há anos emanciparem-se, não serve de suficiente lição. Se somos uma metade pobre, parte de um organismo rico, como cortar o cordão umbilical que nos nutre e serve de garantias? Para vivermos como o Conta Própria? Mas como?
Se temos uma economia estagnada, não é por culpa só do estado de hoje, mas por culpa do modelo que rege esta economia - muito bom no passado, mas ultrapassado e antieconômico para os dias atuais. E até quando essa cegueira?! Uma cidade como a nossa Bagé, cujo maior empregador é a prefeitura, lamentavelmente falida, como pode ir para a frente? Onde a massa que tem algum dinheiro, e que por conseqüência a que consome, são os funcionários públicos; da cidade, do estado e da nação! Decididamente, está na hora da humildade entrar em campo, de, embora com razão, colocar-se um basta nas culpas impingidas aos bancos e aos planos econômicos e de esperar-se uma solução paternalista vinda de cima. "Aquele que decide a esperar até que as coisas melhorem, verificará um dia que aquele que não esperou, estará tão longe que jamais poderá ser alcançado!" Dizem os sábios.
Assim, como em time grande que está em fase arrazadora e que não dá bola para juiz desonesto e sempre vence, nós não deveríamos ter medo de fantasmas armados de foice ou facão. Isso, se a região fosse pujante, produtiva e sem “arrôto de perú”. E mais, acreditem, a discutível questão dos índices postulados para a pecuária, tecnicamente corretos, se aprovados, só vão aumentar o olho grande em direção a estas terras, pois um camarada que quer um pedaço de terra para trabalhar e sustentar a família, certo ou errado, sem saber e até sem querer saber nem menos o que é índice de lotação, não concebe ver um animal adulto pastando em 2.5 hectares de terra. Pois na cabeça dele existe um destino mais abundante para ela. E, mesmo proprietários, assim não nos será possível agüentar a pressão.
Por isso, ainda que, por agora, como comentei em crônica anterior, seja feita reforma agrária e assentamentos em terras do governo, como parece e com momentâneo alívio, salvo reviravolta muito grande na nossa cultura produtiva com mudança de perfil, salvo um povoamento da região e de outras mentes a acrescentarem-se às nossas (Vide Colônia Nova que nasceu de uma reforma agrária bem conduzida), continuaremos pobres. E para tanto, repito, com humildade, é preciso convencermo-nos que estamos, realmente, pequenos; é a précondição para podermos novamente crescer. Só assim evitaremos que, na próxima década, os filhos dos atuais sem terra, ora por serem assentados por aí e aqueles que se tornarem seus iguais por pressão social, estejam batendo(?) nas portas da estância e até na casa da cidade. Só a pujança nos salva e esta deverá ser carregada com simplicidade, sem ostentação ou emocionalidade.

domingo, 17 de agosto de 2008

O analista do cotidiano

O caminhar por entre aquela costumeira, mas para ele, inusitada multidão de homens e mulheres agitados, passantes que se tocavam e se chocavam sem se perceberem, cruzando pelas ruas centrais de uma cidade que, mal acabada de acordar, já se mostrava viva e aflita, tudo aquilo despertava-lhe uma curiosidade enorme sobre o que eram e o que tinham aquelas pessoas dentro si e que ignorava, quais os seus segredos, alegrias, sofrimentos, expectativas....?
O dia anterior havia sido um domingo e aquelas mesmas ruas, largos e praças centrais haviam estado vazias do costumeiro borburinho, dando lugar a que se pudesse notar bandos de pombos e outros pássaros a dançar pelos espaços desimpedidos, aproveitando um certo tipo de descanço, emitindo seus cânticos sempre bem-vindos e alegrando os sentidos, embora o inverno. No amanhecer daquele dia seguinte ao descanso semanal, mesmo bem antes das oito horas, como que atendendo a uma solicitação imperiosa de apresentar-se à vida cotidiana, saindo das entranhas dos bairros, espirrando dos ônibus, das garagens, dos edifícios e subindo pelas ruas convergentes, eis que vem chegando a massa em movimento, uma lava esperançosa a escorrer pelas ruas trazendo a pulsação da vida, em meio aos múltiplos sons que acordam a noite.É tanta gente desconhecida, que o seu desconhecimento de repente lhe motiva uma vontade de interpretar uma a uma delas para melhor saber de seus interiores, provavelmente quase todos normais, mas com suas normais exceções, mesmo assim experimenta um ímpeto de interpelá-las para saber de tudo que lhes vai na alma e suas circunstâncias. Para ele, saber o dia a dia dos semelhantes era a melhor maneira de conhecer a vida e seus entornos, pois o ser humano é um universo muito vasto e sobretudo muito rico para passar desapercebido. Mas como conseguir uma aproximação proveitosa sem parecer excêntrico, inconveniente..... e quem daria ouvidos a um desconhecido de perguntas inoportunas?
Os primeiros a se estabelecerem e que lhe chamaram mais a atenção naquele início de manhã, e que, com evidente desconforto, mas que ao menos mostravam de si alguns aspectos, os mórbidos sociais, eram os que sobrevivem ao desemprego e que mostram criatividade na arte de lutar pela vida e de permanecer buscando. Mesmo assim, como seria aquele desconhecido ali, de rosto edemaciado, o primeiro da esquina, um pai de família, um sofredor, um feliz com sua precária condição ou um otimista? Um lutador sabia que era, mas e o resto dentro de sua vida, como seria?
Uma muito bela moça de roupas apertadas em tons escuros, com ares de mal dormida e sua bolsa de utilidades, era por certo uma simplesmente bela moça da noite, pensou ele, fácil de adivinhar(igual a todas)em suas venturas e mais ainda em suas desgraças naquela sina, que por mal entendida em casa, onde um pai mandão lhe pressionou ao exigir rígida conduta e por isso se havia liberado de forma total, indo então visitar ninhos não mais que mornos e maldosamente fugazes, numa vibração de amores vendidos, comprados e tresloucados. No fundo de si, guardava permanentes ilusões de estabilidade afetiva e desilusões, no amanhecer, dia após dia, anos a fio. Era nítido no seu semblante de olhar vago, a aflição que por um tempo que passava com sabor de inútil rapidez, um sabor amargo ao indicar que aquela vida, que no início era para ter sido transitória, estava ficando encruada com suas experiências agridoces, mas muito mais agris do que doces. E não lhe aparecia um braço amigo, o desde sempre idealizado, que a resgatasse para longe daqueles olhos e mãos que apenas lhe tangiam de forma passageira.
Num outro ponto do entrevero, um ceguinho, aproveitando o calor do sol que nunca via, de olhos fundos e opacos, virados para o chão que simulava ver, emitindo uma voz de lata, penetrante, a vender frases e pedaços de amor, e de sorte, a preço de esmolas. Onde será que morava aquele cego, como será que pegava o ônibus, quantas vezes por dia alguém o auxiliava em alguma coisa ou lhe dispensava desprezo, como se orientava no meio da multidão? Enfim, melhor para ele que, por cego, não via tanta distancia entre as pessoas tão perto. Ao seu lado e um pouco adiante, uma mulata gorda de ancas grandes e fartas, de cuja mão pendem bilhetes das tentativas oficiais, calada, observando quem passa, com um olhar de espreita ofídica, pronta para o bote com argumentos de sorte, que às vezes era certeiro, mas que em outras vezes e frente a recusa explícita, um freguês ainda tem a alternativa de buscar a sorte na contravenção, que ela também agencia, o que evidencia acenando um bloco branco que retira da bolsa de curvin, mais gorda ainda do que a dona, de anotações, badulaques, pequenas compras e pertences úteis para alguém que saia de madrugada a buscar sustento para seus três filhos(dos pequenos) e dois netos, filhos da mais velha.Uma heroína do cotidiano, ao menos para os seus de casa, sem dúvida.
Nosso transeunte e observador, em sua análise do dia a dia, buscava um livro raro de que tivera notícia, uma obra através da qual, diziam, poderia entender melhor a figura de Deus, não o das escrituras mas o das criaturas, algo para ele ainda indefinido apesar da crença e mesmo depois de suas conjeturas de adolescente, um livro que depois de muitas procuras e negativas, o encontrou, um grosso volume para ser lido por muito tempo. Foi quando lhe veio uma idéia sobre qual seria o caminho mais fácil para entendê-Lo: através da compreensão escrita ou comparando-O com o produto da sua arte de entender tantas daquelas imagens e semelhanças, das quais as ruas se mostravam fartas e pródigas."Melhor buscar através das duas", concluiu.
Buscou então refúgio num banco de praça, para uma folhada inicial de sua preciosidade, quando depois de breve tempo teve a atenção despertada para um fotógrafo, desses chamados de lambe-lambe. Que vocação persistente aquela que sobrevivia à imensa e potente tecnologia do ramo e que fazia com que aquele profissional ainda enxergasse uma nesga de mercado para sua arte, uma legítima arte, porque no outro modo, qualquer um é fotógrafo! Uma boina basca, óculos de aro grosso, capa de gabardine surrada pelo tempo e manchada pelo trabalho, bem como seus dedos tisnados de marrom, qual um pinhão e unhas compridas; instrumentos de grande utilidade na sua lida. Quantos casais, com juras de amor para sempre, já teria fotografado? E quantos ainda se amariam como então? Qual deles teria acabado em crime de paixão?Tudo também irrespondível, mas como das vezes anteriores, tudo imaginável a remexer o observador.
E entregando-se a folhar e pensar, eis que chegou o meio-dia, com a manifestação biológica normal daquela hora. Porque não um velho restaurante do Mercado Público, agora renovado? Sentou-se ao fundo como sempre fazia nesses ambientes, de costas para a parede e de frente para a porta de entrada, donde podia iniciar sua observação e exercitar o pensamento. Lotação moderada, numa mesa ao centro uma pessoa parecia aguardar companhia. Meia idade, rabiscava contas sobre a mesa, as quais pareciam não dar certo, sem se poder afirmar se o eventual erro era entre as quatro operações ou se não davam certo com as suas economias; mas fosse como fosse, sacudia a cabeça em desaprovação. Seria mais uma vítima da escassez de emprego, um mal assalariado, um aposentado ou alguém que havia gasto mais do que podia? Qual dessas hipóteses teria melhor solução se alguma coisa pudesse ser feita?Talvez, imaginava o observador, a que estava mais ao seu alcance fosse a que dependia da mudança dele, o homem, a última hipótese, no caso. Pura conjetura, pensou, mas era um exercício que gostava de fazer. Nisso chega mais um e a seguir mais um outro, que juntou-se ao grupo; este último um homem novo que logo ao sentar deu de mão num telefone celular e pôs-se a buscar alguém. Ao encontrar, logo se quadrou, como que a evitar que os demais participassem do assunto; no entanto, não conseguia dissimular a sua insatisfação pela má ligação que conseguira naquele lugar, às vezes se vendo obrigado a falar mais alto e logo diminuindo a voz, quase num cochicho e a seguir tinha que novamente elevá-la porque era o de lá que não ouvia bem; quando então no ápice da conversa caiu a ligação,"Quê diacho!!". E olhando tudo, o observador pensa: "Que pressão exercem os fatos, mesmo os mais comuns, que não deixam um vivente almoçar em paz!!" Ou então, pode ser ele que não se permite isso, completou. Logo a seguir, chegou uma moça de seus quarenta anos, muito bem cuidada e com gestos calculados. Uma capa comprida de cor preta, botas de verniz até o joelho, cachecol e óculos negros de sombra, os quais cuidadosamente retirou para colocá-los na bolsa de couro, também negro. Não usava aliança, mas seus dedos não tinham muito mais lugar para adereços de tantos anéis que ostentava, os quais combinavam com uma corrente grossa que usava no peito, do qual se via a excelência dos seios através do farto decote, vistos depois que abriu a capa para sentar. Pelas reverencias do resto da roda, era uma pessoa respeitada por todos, ao menos até ali. Muito maquiada, certamente não era uma conduta usual para todas as mulheres numa segunda feira de dia, o andar com toda aquela elegância. Puxou uma inusual piteira, montou-a num cigarro que foi gentilmente acendido pelo colega do lado. Quem eram aqueles, todos estranhos? Colegas de repartição, da Prefeitura não muito longe dali, reunião informal de negócios, talvez? Funcionários de alguma outra repartição estadual ou federal? Aquele era um restaurante de gente comum, quem sabe! Mas aquela mulher, em especial, tinha uma estampa de já ter sido casada, pensa o observador, separada de seu marido por seu forte temperamento independente e opiniático, o qual ele agüentou tão somente por causa dos filhos que, uma vez que estavam casados e independentes e já passados alguns anos, se haviam separado. E ela, embora na repartição vivesse rodeada de homens, alguns até interessantes, gostava mesmo era de ser admirada por eles, ainda que ser amada mesmo, da forma como à vezes seu corpo precisava, gostava então que fosse por estranhos que eventualmente tivessem coragem de abordá-la, o que deveria acontecer não muito raramente, pensou. Quanto mais estranhos, mais asas tinha a fantasia!; deveria pensar ela.
Terminado o almoço, todos se foram e ele ficou a pensar vazio, não havia mais ninguém além dos da casa e uma cadeira chamou-lhe a atenção, pendurada no teto com uma pequena placa explicativa que ele não conseguia ler.Talvez fosse a cadeira do primeiro dono, ou do pai do atual dono, a qual, carinhosamente, era preservada para que ensejasse respeito e indagações. Pediu a conta e na saída perguntou ao moço da caixa, um que lhe parecia mais respeitável e com pinta de ser o dono;---De quem é aquela cadeira,moço?---É do Chico Alves. Há muitos anos...., numa passagem por aqui, cantou, sentado nela!
E o observador saiu, então, pensando se todas as suas imaginações e fantasias daquela manhã a respeito de quem viu e com quem se passou nas ruas, eram singulares como essa última.....Ao mesmo tempo que sabia que, se não eram bem assim, bem que poderiam ter sido.

sábado, 28 de junho de 2008

A duração do tempo

A DURAÇÃO DO TEMPO

Como a maioria das coisas na vida, o tempo era também uma coisa relativa, pensava ele. O tempo da indiferença, por exemplo, tinha uma duração quase nula, imperceptível, era o tempo de uma soneca, não custava, não pesava e nem doía, era um tempo de baixa qualidade que quando se pensava nele, sumia, se assim podia expressar-se. Já o tempo da boa esperança era arrastado; queixava-se ele, esse tempo, que tinha que carregar um fardo muito pesado, numa longa trajetória e por isso era tão demorado; era o peso do tempo relacionado ao tamanho da sua expectativa e à perspectiva dela, que quando era grande ou difícil, levava um tempo mais eternizado para chegar. Quando eram esperanças menores a coisa, então, andava mais rápida, mas também, como os outros, era relativo. Ruim mesmo era o tempo da desesperança, esse sim era um período por demais sofrido, era o tempo das mães de guerra, da mulher do presidiário amado, dá para imaginar, se se pode, que era o tempo do cavalo velho que dorme em pé ou o tempo das vovós que teciam suas recordações com fios sem fim em seus desenhos sem forma, era o tempo em que foi inventada a colcha de retalhos, de infinita paciência e quase inutilidade; vejam só, era o tempo de mulheres silentes de olhares foscos, sentindo a vida escorrer-se-lhes pelas frestas do assoalho, entre embalos e ringidos. Um tempo de depressão, longo e frio, esse era um tempo que não passava.
Mas existia também o tempo das alegrias e da felicidade, de todos o de mais alta qualidade, por motivos óbvios, mas o de menor duração, como se fora pequenos frascos de perfumes fugazes, efêmero, escapista, quase inaprisionável, escorregadio, que quando se queria controlar-lhe a transitoriedade já estava no passado. Mas, sem dúvidas, o mais vibrante e entusiasmado e ainda que inspirador da afirmação de que o que é bom dura pouco(tempo). Ou seja, o tempo bom é aquele que não é durável, tudo por uma questão de relatividade e de percepção.
Pois, foi num tempo desses, não sabia bem dizer quantas medidas em horas, dias ou meses fazia que andava assim, porque ainda não definira que qualidade vinha tendo a sua vivência, mais que emocionante, que aquele coração em especial havia se envolvido, como mais uma de suas costumeiras paixões. Aliás, não gostava muito de chamar de paixão, estava muito maduro para sentir coisas de coração inexperiente, mas duma coisa tinha certeza e sobre o fato aconselhava seus amigos, o coração, por mais desajeitado, encabulado e retraído que seja, deve sempre estar envolvido com um amor novo ou renovado, de preferência complicado ou proibido, que o faça bater desordenadamente e de forma atrapalhada. Pois, dizia com ar professoral adquirido ao longo de muita taquicardia e arritmia, a função do coração é bater nesse compasso, com sofreguidão e expectativa, sempre ocupado com amores desvairados, com ou sem sofrimento, mas de uma forma que ele saiba e valorize o porque veio morar naquele peito.
Mas, como poderia um coração, aparentemente tarimbado, que de muitas armadilhas havia se escapado, e que em outras tantas havia se deixado prender, só pelo prazer da peripécia, daquela vez deixar-se envolver-se com tamanho volume de emoções e tão forte envolvimento? E mais, com um outro estalando de novinho, mas com ares de sofrido e por isso arredio, sestroso, uma dificuldade! Pois aconteceu, tudo a começar quase de um cruzar de olhos despretencioso, uma coisa que deveria ser como um amor de quermesse, sem conseqüência ou continuidade, pois havia se tornado uma avalanche volumosa, um turbilhão que lhe havia lhe arrastado costa a baixo com a razão e a tranqüilidade. Valia a pena? "Sempre vale a pena, quando a alma não é pequena!" Era a grande pergunta que um coração como aquele, segundo seu portador e intérprete, deveria se fazer. Se a situação fosse julgada pela opressora sensação de ocupação e pela rapidez que aquele amor fazia o tempo passar, por certo que sim. E, então, o velho coração madurão andava a "mil pelo Brasil" desde que conhecera aquele similar desconcertante, motivador de todas as atenções do dia e dos sonhos da noite, avassalador era a palavra que mais se aproximava. E o tempo urgia! Pobre dono, desde aquele envolvimento, começado como um nomorico de guri, com aquele outro que também era romântico, que o coração havia perdido a noção do tempo, o tempo era sempre e estava sempre transcorrendo, mas quase não dava para percebê-lo e já era passado. No entanto era sempre presente, pois sempre emitia sinais e freqüência de marreta quebra gelo, extremamente absortas e ocupadas em quebrar a rigidez do outro, um bem mais jovem e quase sem passado, mas mais sofrido em sua inexperiência de dores précordiais desnecessárias que este, deste lado, teimava em dissipar e acalmar com seu entusiasmo de quem sabe que estas dores se curam com os mesmos princípios da homeopatia: simila,similibus curantur. E tudo passa...
Claro, que tudo passa, mas em parceria com o tempo, senhor do universo. Mas, quem garante que esse entendimento é o consenso? Mesmo assim o velho coração veio passando frações e frações de um tempo inadvertido e inebriante, nem saber quantas frações entre uma arritmia e outra, às vezes numa tentativa inútil, mas batera não somente em tom de descompasso - por se animar a se envolver - como reza a sua cartilha e como é a sua função. O velho coração passou outras tantas frações de encantamento e emoção e quando viu, nem sabia o que era tempo. Amar tinha sido um verdadeiro passa-tempo.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Espelhos de pai

Dias atrás, faleceu uma pessoa de minhas relações de camaradagem, um cidadão ao mesmo tempo sisudo e alegre, respeitoso e trabalhador; e a quem, volta e meia, eu dedicava uma piada fresquinha para rirmos juntos. Mas que, no entanto, resistia às minhas investidas para que deixasse de fumar. Carlos Alberto Saliba, chamava-se. Entretanto, foi possível constatar depois do infausto, que ele valia mais do que a nossa camaradagem pudesse imaginar, a julgar, entre outras coisas, pelo luto decretado que fechou as portas do escritório onde trabalhava, como também pelas palavras, entre outras tradutoras da verdade, ditas por seu patrão e companheiro, ao comentar sua perda: “Quebraram-me os braços!”
Quando se morre, é comum que nos tornemos um pouco melhor do que éramos em vida e até um indulto amplo é quase a regra. Mas, ao bom observador desta regra cabe uma filtragem acurada, como no caso.
O cidadão em questão deveria ser bom mesmo, maior ainda que o transparecido em nossa relação transitória, principalmente, a julgar pelas singelas, sinceras e singulares palavras ditas por sua filha Lucéli, em publicação de jornal da cidade Onde disse algo como: “.... e nenhum livro contará estórias como as que tu contavas para mim.” Somente um bom pai inspiraria esta construção sincera de saudade, não é mesmo? E mal saberia ele que logo de sua morte serviria de espelho para ela.
E, lendo aquilo, me transportei, então, para quase quarenta anos atrás, quando meu pai faleceu, de forma violenta. Seu José era um homem reto e respeitoso, que entendia que o direito das coisas tinha somente um lado; inteligente, justo, apologista do certo, amigo leal, homem correto e franco; mas, era sobretudo um opiniático contumaz e invergável, quando estava com a razão. Como se diz na campanha: “era homem de lombo duro” que “corcoveava” fácil, até mesmo com os arreios.
Com uma personalidade assim, seria fácil compreender que fosse de difícil relacionamento com quem tivesse uma visão de vida adolescente. Motivo pelo qual, àquela época, a minha percepção da sua estatura e grandeza não era a mesma que o tempo de hoje me fez ver, por completo. E, naqueles dias, não me animaria publicar construções saudosas, ainda que choroso. Além do quê, por que quando em seu leito de morte manifestou-se preocupado sobre meu futuro; “como se eu não pudesse me conduzir”, pensei eu. Talvez, temendo as conseqüências de minha intensa vida boêmia de então e hoje de há muito abandonada. Foi o que pensei, a contragosto, e sei hoje que ele mais uma vez tinha razão.
Ao longo de nossa separação, desde então e por conta dos muitos anos que se passaram, muito amadurecimento lentamente semeou-me os pensamentos e um maior entendimento adveio! Para a ventura de ter uma visão mais justa e correta do pai que tive. E tenho.
Neste tempo, foram incontáveis as pessoas que sobre ele teceram considerações elogiosas como cidadão e amigo, nunca o contrário, para meu gradativo orgulho.
E, sobretudo, hoje, entendo a proteção constante que sempre tive de um “especial anjo da guarda” e que muitas vezes, no perigo, "segurou-me pela gola"; um anjo que leva seu nome. É uma força protetora de energia infalível, conhecida e familiar. E a qual dedico, diariamente, um beijo em sua foto e uma conversa de pé de ouvido. Meu bom exemplo, meu espelho!

Seu Osvaldinho Vieira.

Um dos predicados especiais cultivado pelos filhos e netos do Sr.Otto Carvalho, a quem não conheci, além do total descuido e desinteresse que têm pelos cabelos, a ponto de já tê-los totalmente perdido, consiste na arte de fazer e cuidar de amigos, admiradores ou mesmo servidores. Cuidado que lhes é dedicado no mínimo com um ingrediente chamado simpatia e, quando não, com bondade, amizade e humanidade. De Otto Carvalho Filho, recentemente falecido, já escrevi algumas maltraçadas como meu professor de francês que foi, como também de humanismo e cidadania, que deixou em seus alunos marcas indeléveis de saber e carinho, até hoje um eterno sempre festejado mestre. Um outro é João Bosco Carvalho, meu irrequieto e brilhante colega, que não dispensa uma conversa bem temperada, coroada de peculiar, farta e sonora risada; e outros desta mesma cepa, os quais esbanjam luz e força catalítica.
Mas que nunca se omita a pessoa que reparte o centro da conversa de hoje, Danúbio Carvalho, conhecido de toda a cidade e arredores como um homem que sempre trouxe a clarividência aos milhares de necessitados que até procuram com a finalidade de terem compensados os seus erros de refração ocular, este sim, um verdadeiro homem de visão, reeleito anualmente, quando não continuamente, pelas opiniões gerais. E que tem como um de seus segredos, a justificar ou a acompanhar seu sucesso pessoal, a escolha, o bom trato e a conservação de sua escala de funcionários. Nas suas óticas, mais especificamente na sua principal casa, manteve sempre pessoas em seus balcões, cujos anos de trabalho passam e elas lá estão, algumas com menos, mas outras com vinte, trinta anos ou mais, algumas mais notórias, outras mais incógnitas.
Conheci muito o Sr. Osmar Vieira, que era antes de mais nada um patriarca, um guarani, alvirubro que já deve estar sabendo dos resultados das últimas campanhas e um baluarte da gastronomia e de cordialidade em sua atividade preferencial, a qual desempenhou por toda a vida e magistralmente, no velho Restaurante Tropical.
Pois depois de sua ida para o céu, passou a chamar-me a atenção, pela semelhança, um cidadão franzino como ele, nonagenário e com ele muito parecido, que transitava amiúde pelos espaços da ótica de Danúbio Carvalho. Às vezes, subindo escadas como se um guri fosse, correndo carreira com as gurias da casa depois de baixadas as cortinas, o qual fiquei sabendo ser delas, um bem intencionado abastecedor de balinhas e outras guloseimas. Provavelmente, resquícios de um galã adormecido(ou será que era de um galã apenas cochilando?).De qualquer maneira são gestos que fazem parte dos exercícios para manter bem viva a alma, que Seu Osvaldinho Vieira, irmão do antigo gastrônomo e de quem é quase cópia, e dos quais gestos ele não abria mão no convívio da ótica.
Seu Osvaldinho, pude sentir pelas manifestações das funcionárias e do seu próprio patrão, era pessoa por demais querida e respeitada naquele meio, onde trabalhava como relojoeiro há muitos e muitos anos, artífice em consertos de raridades e antigüidades. Naquela mesma loja, onde há muito tempo tem um relógio desses de pé que, embora sempre estivesse à venda, passou a fazer parte dos móveis e utensílios, sempre aos cuidados dele e cuja corda e pontualidade sempre estiveram sob sua responsabilidade, do qual se afeiçoou. Certa vez um cidadão abastado se agradou daquele belo marcador do tempo, por seu porte e imponência, resolvendo presentear sua esposa com o dito. E, pagando o preço pedido, que não foi pouco, o equivalente, à época, ao preço de um Fuca Zero, daqueles do Itamar. Acertado o negócio e embora com um certo sentimento, Seu Danúbio, o dono, dirigiu-se ao Seu Osvaldinho e pediu que ele desse corda, acertasse as horas e passasse um óleo de peroba no relógio para que se efetuasse a entrega ao comprador, no que foi obedecido.
Nos dias seguintes, o patrão encontrou Seu Osvaldinho muito borocochô, quase chorando em sua sala de trabalho. Quando perguntado, respondeu que sua tristeza se devia à venda do por ele tão estimado relógio, que se fora. Mas a tristeza era tanta, a depressão e o desconsolo eram de tal dimensão e tão notável, que Seu Danúbio, com seu bom coração e que sabe o valor das coisas que realmente têm valor, acabou por chamar de volta o comprador e, argumentando, desfez o negócio em honra aos motivos de Seu Osvaldinho. E ambos ainda ficaram por lá e por muito tempo, funcionando muito bem!
E por muitomais tempo, ainda, depois disso, ele não foi mais visto, o diabete amputara-lhe uma perna e as meninas é que iam em sua casa, buscar balas.

O Gnomo Elyseu

Elyseu Paglioli foi um homenzinho mágico, desses das fantasias de criança. E que nós, feito crianças, também enxergamos, um Gnomo da saúde e da cultura cuja longa passagem por mais de 80 anos quase todos no século XX, trouxe luz à existência. Homem de baixa estatura, tinha a personalidade pícnica, própria de seu biótipo e, nesse particular, teve a companhia de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, Getúlio Vargas, Napoleão, que eram como ele, baixinhos emprendedores, desacostumados da derrota.
Grande anatomista, passou muitos e muitos anos de sua vida aprendendo em necrotérios, debruçado em textos. E depois de obter formação autodidática e de ter alguma intimidade com Deus, este lhe permitiu e o iluminou para penetrar mais fundo na natureza da sua obra mais preciosa, o corpo humano e de forma mais específica, penetrar fundo no cérebro, onde, segundo alguns, habita a alma. E, foi assim, quando nos primeiros anos da sua medicina, que o estudo e a curiosidade científica renderam-lhe várias teses, tornando-se doutor muitas vezes.
Foi, todos sabem, o precursor da neurocirurgía no sul do Brasil. Operava, nos primeiros tempos, sem anestesia geral, usando tão somente a analgesia da pele, muitas vezes conversando com o paciente durante o ato operatório, o qual, vez que outra, colaborava com o nosso neurocirurgião desbravador. Ainda hoje, determinadas cirurgias para retirada de fócos epilépticos também são realizadas naquelas condições por um neto seu e seu homônimo. Seria por acaso ou por herança e orientação avoenga?
Em 1946, depois da prática médica de muitos anos e já tendo difundido a especialidade, junto com outros colegas, Frederico Ritter, Ivo Correa Meyer, entre outros, fundou o Instituto de Neurocirurgia de Porto Alegre, o qual foi o berço da melhor neurocirurgía brasileira que, até hoje, põe em prática. Durante muitos anos, até 1960, no Instituto se operava 100% dos casos neurocirúrgicos do Estado e da Região. E, ainda, na prática neurocirúrgica ali levada a efeito, criou e desenvolveu várias técnicas e procedimentos difundidos no mundo inteiro.
Nesta época inicial, José Ribe Portugal, também, destacava-se no Rio de Janeiro, Mattera em Buenos Ayres, Alejandro Schröereder em Montevidéo, que floresciam como precursores da neurologia e da cirurgia neurológica. Do uruguaio Schröereder, contava ele, que, certa vez, iniciou uma conferência em um congresso panamericano da especialidade, dizendo:
--Nosotros uruguyos somos campeones de las dos pelotas, la del fútbol y del quiste hidático. No quê não foi contestado. Era uma alusão picante à recente Copa de 50 que “ganó Obidúlio Varela”, lembram?.
Amigo de Getúlio Vargas, a quem admirava e respeitava, foi ser seu ministro. Como essa nova função lhe absorvia sobremodo, afastou-se de Porto Alegre deixando em seu lugar o seu zagueiro-central, Dr.João Dahne, no comando de um time de grande futuro. Futuro esse que são os dias atuais. O próprio Dr.Dahne, contava que, na época, chegava a operar 200 casos por ano, o que certamente lhe conferiu uma experiência difícil de ser alcançada. Além de ter sido este também, um homem bom, um rastro de saudade.
De volta do Ministério, Elyseu Paglioli prosseguiu na sua atividade de cirurgião, sempre no Pavilhão São José da Santa Casa, sede de seu Instituto. Mas, pelo prestígio alcançado até ali, foi ser Reitor Magnífico da UFRGS, posto que ocupou e que muito bem desempenhou, por muitos anos. Muitos dos prédios existentes, hoje, na Universidade, são obras dele, inclusive o prédio da Reitoria. Amigo da cultura e dos estudantes, por quem era apreciado e admirado, o nosso Gnomo fundou, entre outras coisas, o coral universitário. E, apaixonado pela música, despojava-se de sua envergadura passando longas horas assistindo aos ensaios, sem faltar, é claro, às apresentações oficiais.
Fora a profissão, amava a família, os amigos e o seu esporte predileto, a caça. E, junto com o seu arquiamigo Stringhini, viajava 1000 quilômetros de estrada de terra num fim de semana para correr lebre nos campos de Cruz Alta, ou perdiz, naquela ou em outras bandas.
E, com toda esta capacidade de usar o tempo de forma frutuosa conforme a sua predestinação, ainda sobrava-lhe energia para ter vida social com o mesmo prazer e empenho, tendo sido o idealizador e empreendedor do Guaíba Country Clube e, é provável que as centenas de pessoas que lá tem seu lazer, mal saibam disso.
Assim, tendo sido feito à sua imagem e semelhança por vontade divina, Elyseu Paglioli reinou sobre o seu mundo qual um soberano, que passou para a história tão somente por suas muitas virtudes, como a bondade, a fraternidade, a solidariedade, a criatividade, a paternidade, a humanidade, a curiosidade, a lealdade, a sobriedade, a honestidade, enfim, virtudes que não lhe faltavam e pelo muito que criou e edificou, cumpriu um desígnio arquetípico e com tanta criação, se assemelhou, sim, ao Criador.
Em março de 1971,aconteceu a Jornada Neurocirúrgica, em comemoração ao Jubileu de Prata do Instituto de Neurocirurgia. Naquela época, éramos parte de um grupo de residentes de seu Instituto, para onde entramos pela mão do Dr.João Dahne. Durante aquela jornada comemorati-va, podia-se encontrar especialistas do mundo inteiro, europeus e pan-americanos que, aqui, vieram ratificar o prestígio de Elyseu Paglioli e de sua equipe.
Durante a residência médica, a seriedade e o respeito eram a balisa inicial de nosso relacionamento, sendo uma ventura e motivo de muito orgulho entre os novatos e do qual, em algumas vezes, compartilhei, poder operar com o provecto mestre.
Arguto e espirituoso, nós médicos residentes, certa vez fazíamos farra com um bolinho frito, duro como uma pedra, retirado do almoço trazido aos aposentos do plantão pela servente Célia Schwab, o qual servia para fazermos um futebol improvisado no quarto do plantão, em meio a grande algazara que foi por ele percebida; entrando de surpresa no ambiente e, rapidamente, percebendo que a causa era o bolinho, deu de mão em um similar da bandeja, saboreou e disse:
--Hum, gostoso esse bolinho, nem na minha casa eu como coisa assim! Acabando com a algazarra e não nos dando chance de reclamar da condição pétrea do alimento.
Lembro, ainda, de uma estória que contava, que lá por São Francisco de Paula um gringo falava de uma façanha feita num caminhão daqueles antigos, que fazia tanta força e gemia tanto na subida da serra que chegava a "espissá o sassís". E como, se não bastasse o que patrocinava à vida, ainda detestava o cigarro, o qual inculpava pela morte de um seu irmão e contra o qual se debateu, por muitos anos, em relação ao vício do amigo Dr.Dahne, com quem, indireta e passivamente, fumou maços e maços na salinha dos médicos.
Nosso personagem tinha a ventura de amar a figura das mulheres, depositárias de seu ardor varonil e a quem, como Gnomo, também encantava; mesmo assim, como naquela época começavam a se desnudar os joelhos das mocinhas(e até um pouco mais), ao mesmo tempo que sumiam os maiôs e diminuía o tamanho dos biquínis ele, indignado com tal despudor, lascava-nos:--Mulher a gente péla é na cama!! Dizia isso baixinho e ao pé do ouvido. Mesmo assim, não dispensava o gesto de distribuir guloseimas às várias mocinhas que o rodeavam amiúde, recebendo de volta transfusões de vida.
Se a memória de todos nós falhasse, não falharia a imponência e a eloqüência da obra física e espiritual de Elyseu Paglioli, do qual se comemorou o centenário de nascimento a algum tempo já, para a glória das virtudes que semeou. Mas, como ela não falha, é ainda ajudada ainda pela emoção dos encontros científicos, em que é lembrado por seus alunos e que diz que ele ainda vive em tudo que construiu, mas sobretudo vive no seu filho, nas suas filhas, nos seus genros, nos seus netos, nos colaboradores mais chegados que o respeitavam e admiravam, bem como vive em toda sua venturosa família e em todos nós que tivemos a chance de, um dia, admirá-lo em pessoa.
Pois, apesar de ser aqui chamado de Gnomo, não era mágico de fantasia, era um homem normal que se fez excepcional com seus braços e sua inteligência, mas sobretudo usando de mais uma especialíssima virtude, a criatividade com determinação que lhe eram intrínsicas. E dirigiu, com rédeas seguras e obedientes aquilo que o vulgo chama de destino.
Esta pequena sinopse foi, apenas, uma abreviatura de a sua carreira e da sua obra, deste homem incomum que por ser vocacionado a doador, Deus deu-lhe duas mãos grandes, desproporcionais ao seu físico, mas proporcionais à sua capacidade de fazer o bem. Pois,

assim como uma cruz de estrelas mostra o sul
e outras de igual sorte, mostram o norte,
outras, ainda, com mais ou menos sorte,
indicam a morte! J.B.T.

Pois já a vários anos atrás ele vislumbrou uma estrela a lhe indicar este caminho e subiu. Subiu deixando um rastro cristalizado em seu cami-ho. Certamente não morreu, porque, por certo, os gnomos não morrem. E, como tal, o Gnomo Elyseu deve andar encantando e cintilando em outros mundos e em outra dimensão, enchendo de estrelinhas miúdas tudo que toca.

A Gaita do Desidério

Daquela turma que morava no Ed.Noal, ap.8, no início da Rua Dr.Bozano em Santa Maria, até hoje os que permaneceram convivendo mais amiúde fomos nós, o amigo João Desidério e eu.
Pois, naquele ano glorioso de 1963, fomos nos juntando aos poucos, até formarmos uma turma cujo ingrediente inicial e depois permanente, seria o respeito no convívio, o que nos possibilitou morar juntos durante muitos anos(alguns ficaram juntos por sete anos), de forma amigável e muito bem. Chegamos a ser um total de oito moradores, ao mesmo tempo, todos inesquecíveis por um ou por outro detalhe, sobretudo ligados por simpatia e afeto sadios; uns de Bagé, outros de Dom Pedrito e durante alguns anos mantivemo-nos assim. O que só foi modificado com a conclusão dos cursos que alguns cumpriam gradativamente.
Além das qualidades pessoais de cada um, tínhamos dois objetos que materializavam a alegria e que nos uniam; éramos muito festeiros, comemorávamos qualquer coisa desde que fosse em uma sexta-feira à noite ou num Sábado e, religiosamente, ao som da gaita do Desidério. Tomando caipirinha num penico alouçado. Sim senhores, logo na montagem do apartamento o dito vaso noturno foi comprado numa ferragem da mesma rua e, depois de ajeitado um bico no objeto, foi feita a sua inauguração solene com seis limões cortados e amassados, açúcar a gosto e o líquido precioso que nos aquecia nas festas de inverno e, porque não, também, nas de verão. Fosse nas noites em que era servida massa com sardinha, minha especialidade, e que era o prato de comemorações menores, como apenas pelo prazer de se estar vivo, ou nas noites de galinhada, feita com galinha roubada na redondeza e algumas vezes convidando o próprio dono para provar, para comemorar algum aniversário ou uma boa nota na escola. Ou, por fim, fosse em churrasqueadas feita no terraço do edifício, sempre mais para o lado da primavera ou outono, no início do ano letivo e, dependendo, até no grosso do inverno, porque não?. Pois, fosse como fosse aquele penico andava a noite inteira de mão em mão, fazendo sua fama (aliás, esse penico ainda existe e mora em Florianópolis).E, mais para o final da festa, era a gaita do Desidério que abria o seu fole milongueiro. Eram estes os dois ingredientes responsáveis pela alegria da festa, a gaita e um penico. A desgraçada soltava sons que mexiam com a alma de nós guris, alguns apaixonados pela realidade de suas namoradas e noivas, outros pelo descorno de não tê-las. E os tangos e boleros tinham os tons que embalavam nossos sentimentos, em corações enamorados; no mínimo pela vida em um tempo de nunca mais.
Um ano mais tarde do início deste convívio eu entrei para a faculdade e passado algum tempo, nos meses iniciais de júbilo pela sensação de ser doutor, (na verdade é uma época em que a gente é nada mais que uns cocôs de doutor), em que muitos alunos estranhos se conhecem, aproximam-se, os mais afins se afinam e se formam novas e ricas amizades. Pois foi assim comigo e com mais dois, nos tornamos chegados por muitas circunstâncias estudantis, depois por afeto e, próprio da idade, por causa de muita festa. Foi então formado por nós um grupo de seresteiros, os quais revigoraram a quase desusada seresta nas noites de sexta-feira, em Santa Maria. Éramos três numa lambreta; sim, três. Um motorista, que sentava bem na ponta do banco do nosso minguado veículo, um cantor, que era eu, magrinho e sentado no meio e um instrumentista, virado para trás carregando a sonora..... a gaita do Desidério. E ainda fazendo alguns floreios em movimento com a pobre gaita emprestada, a qual cumpria jornada dupla. Ah, tempos, quê beleza! Quanto professor recebeu seresta em véspera de provas sem mesmo nos conhecer mais além que dos bancos da faculdade. Muitas serenatas foram dadas com a gaita do Desidério, (sempre sem ele, que como homem caseiro que era, se limitava a ficar em casa escutando futebol num radinho Phillips verde claro, ou escrevendo e lendo cartas da sua única namorada até hoje, a Zoila, lembra amigo?). A maioria das serenatas era para professores, alguns deles até, pela repetição, deviam sentir um certo arrepio ao ouvir, na calada da noite, o ronco (trrrrrrrrrrrrrtatatatatatata) da nossa lambreta festeira.
Uma professora de bioquímica, Profª.Olga Fishmann, até então solteira e com risco de se tornar passada do ponto de casar, sempre nos recebeu muito cordialmente e tinha, por bem, brindar-nos e aos nossos arroubos de músicos da velha guarda(Frenesí, Besame Mucho e até Granada, com direito a sapatear em cima da mesa de jantar, quando não, eu próprio declamava poesias de gosto duvidoso para a ocasião, como"No Bolicho" e outra que dizia assim: "Eu sou um bagual cansado, que esterco e cheiro na bosta, boto a cola nas costas e saio, pererê, pererê, pererê!", muito própria para quando já se ia embora).E éramos brindados por ela e sua velha mãe, com um terrível licor de ôvo, próprio da cultura judaica à qual elas pertenciam, um legítimo destronca peito que até parecia um espantalho enjoativo, para que não se voltasse mais lá; mas, qual nada.
Certa vez a festança foi mais encorpada que o habitual e passamos na hora e quando nos demos conta já eram oito horas da manhã. E, naquele sábado, teríamos aulas extras de anatomia, deparando-nos então com um problema: "Onde colocar a gaita?". Solução só encontrada quando levamos a gaita para dentro da aula e a escoramos num canto da sala, bem na entrada.Com a maior cara de pau e com os olhos inchados de sono e outras milongas.
Mas foi num fim de ano letivo, com boas perspectivas de aprovação para todos, que se deu um grande "quiprocó", envolvendo aquela melódica sanfona. Um certo fim de noite, desta vez éramos vários, uns seis ou sete, depois de muito embalar o sono de alguns e algumas com nossas serestas, sentindo que ainda restava-nos fôlego. Todos se propuseram, então, a ir dar uma olhada num fim de baile no distrito de Camobí onde, segundo a crença daquele dia, existia quantia de moças bonitas, nossa pretensa especialidade. E fomos numa picape emprestada pelo pai de um dos participantes. Mas, qual não foi a nossa decepção, quando lá chegando deparamos somente com uma tremenda restolhama, como dizem na campanha, e o baile já pendendo para os acordes finais. Quando só nos restou fazer algum saracoteio de adolescente desacompanhado, voltar tocando gaita e fazendo barulho. Eram quatro de nós sentados na cabine (eu, inclusive, que era magrinho, vinha sentado entre o motorista e a porta da esquerda, para dar espaço para o gaiteiro abrir o fole a seu gosto)e o resto, na caçamba do veículo. E dê-lhe gaita e cantoria!
Não seria de admirar o que aconteceu: numa curva, logo na entrada da cidade, felizmente, em frente ao Santuário da Virgem de Schöenstad, uma santa da qual todos ficamos devotos depois do ocorrido. A estrada estava em construção, havia muito cascalho, tanto em cima do asfalto como nos olhos do motorista(àquela altura!!!). A picape derrapou, deu duas ou três cambalhotas e, quando dei por mim, estava agarrado num poste, com a moleira toda recortada, isso, calculo eu, uns quinze minutos depois, já com muita gente recolhendo os feridos. E quando me conduziram, mal deu para ver a pobre gaita do Desidério esparramada no chão, com o fole esgaçado e o ventre exposto, como nunca havia estado antes em sua vida e em vez de acordes, emitindo lamentos e gemidos. Pois, ainda me lembrei de recomendar a quem me socorreu naquele entrevero:"-- Moço, socorra também a gaita!". O que foi feito.
O gaiteiro, coitado, pela posição em que trazia o seu instrumento musical, levou um tirambaço no queixo e quase atorou a língua, na qual levou quase vinte pontos. Dois dos acidentados foram para o hospital por poucos dias, as famílias quase todas de fora, foram avisadas. Seu Zé Brasil, meu pai, se tocou pra lá e ainda teve que atravessar um enorme peludo ali pelo Passo do Verde, onde ainda não tinha asfalto. E só chegou em Santa Maria com o ônibus puxado por uma daquelas Catterpillar amarela. Ou seja, uma incomodação completa. Quando nos vimos, ainda me lembro que lhe disse no bem do assunto:---Rasguei toda a minha roupa "de morrer"(como se dizia da melhor roupa naquela época). Ao que ele retrucou, inteligente que era:---A "de morrer" eu garanto que não foi!
Passado alguns dias em que as feridas já se haviam curado, nós, o trio musical que atendia pelos nomes de Negrão, Baixinho e Mixuruca, que éramos os mais chegados e responsáveis pela gaita do Desidério, tomamos a providência de mandá-la para conserto na própria fábrica e, ao cabo de uns quatro ou cinco meses, entregamos a dita de volta ao seu dono.
Em sessão solene e festiva, em que a artista principal continuou sendo a própria gaita. E passado algum tempo de natural retração, ela voltou para a noite, com muitas recomendações de juízo e prudência, mas mandando muita milonga!